Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Dia de Hoje

Dia de Hoje

04
Nov21

Dia de hoje 12

Zé Onofre

                12

 

2021/11/03

 

Quando frequentei o quarto ano do liceu

O mesmo professor dava história e português.

Por que eu era Bom a história, coisa rara,

Tinha o mestre por mim certa consideração

E por isso a português o mínimo era o dez.

 

Confiado nesta linha de acontecimentos

E como a história era o meu encanto,

Estudava- a como quem vive uma aventura,

O português esperava preso a um canto.

Exceto o que neste tinha interesse a leitura.

 

Havia também a ferocíssima gramática,

Mas aqui o professor da quarta classe,

Que não era de levar as coisas com graças,

Se não cantava afinado o – a, ante, após até…

A “santa Luzia”, dos cinco olhos, fazia desgraças.

 

Na escrita, a coisa não era boa nem má,

Era uma jogar na lotaria uns dias não outros sim 

Fazia a redação com pouca, ou muita dificuldade,

Que admiração, era feita sem prazer algum.

O importante era que tivesse começo, meio e fim.

 

Tinha sempre a nota dez, pelo menos, garantida

Deixava estar como estava. Asneira grande seria

Se tentasse mudar o que bem estava e ter negativa.

Assim, do modo que a coisa bem seguia,

Tinha a passagem de fim de ano garantida.

 

Um dia aconteceu a desgraça quase total.

O Mestre com certeza acordou de juízo torto.

Tema – “Regresso a casa após longa ausência”.

Era tema para quem nunca fora além do Porto,

Que saíra num dia de manhã e voltara no outro?

 

Paciência estava no barco era para fazer.

Se a não fizesse nem a História garantia a nota dez.

Então para a viagem parecer longa e durar

Pus a máquina, suada, fumegante e ofegante

A parar não poucas vezes em cada rampa que fazia.

 

A viagem que nem o diabo faria tão acidentada,

Descabida, inverosímil inventada até à medula,

Demorou bem dez horas que não foram coisa breve.

O professor furioso  - então a máquina era uma mula?

Nesse dia a bendita nota dez resolveu fazer greve.

 

Alguns anos mais tarde, mas muito mais tarde,

Veio-me este acontecimento à memória.

Pendurado numa montra estava um quadro

Que pelo seu aspeto tinha cem anos de história.

Se, então, eu te conhecesse a nota dez estava na mão!

Zé Onofre

22
Set21

Dia de hoje 4

Zé Onofre

                 4

 

2021/09/22

 

Num tempo,

Que tinha todo o tempo

Que o tempo tinha,

Saltava

De Terra em Terra,

De polegar espetado ao vento,

À espera que um quatro rodas

Me levasse.

 

Nesse tempo,

Em que tinha

Todo o tempo

Que o tempo tinha,

Fui parar à praia de Matosinhos,

Onde esperava abrigo

Que não encontrei.

 

Como tinha

Todo o tempo

Que o tempo tem

Recomecei a viagem,

Dedo polegar

Espetado ao vento,

Para a casa paterna

Junto ao Monte de Stª Cruz,

Junto ao Tâmega.

 

Como tinha

Todo o tempo

Que o tempo tem,

E os quatro rodas

Não viam,

Ou desviavam os olhos,

Do polegar

Espetado ao vento,

Continuei noite dentro.

 

Passo atrás de passo,

Pé à frente,

Pé atrás

Ia.

 

O sol

No seu vagar de Verão

Não se pôs,

Foi-se pondo

Tinha, como eu,

Todo o tempo

Que o tempo tem.

 

A subir a serra de Valongo,

As estrelas,

Uma depois da outra,

Acendiam-se,

Fazendo ressaltar

O azul-escuro do céu

De horizonte a horizonte.

Como Todos

Tínhamos todo o tempo

Que o tempo tinha

Eu,

Sol,

Estrelas

Até a lua  

Numa marcha

Lenta e leitosa

Apareceu

Para iluminar

Os meus passos

Serra acima,

Serra abaixo

Até onde as pernas cansadas

Encontraram descanso

Num tronco do caminho.

 

Os olhos, esses,

Continuaram

A seguir o caminhar da lua,

Gozando

Todo o tempo

Que o tempo tem,

Até ao alvorecer.

   Zé Onofre

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub