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Dia de Hoje

Dia de Hoje

29
Mai22

Comentário 273

Zé Onofre

B 273 -------- 268

 

022/05/29, dia da Festa de N. Srª da Livração

                                            

Sobre Passado Presente Futuro, por Isaurinda Baltazar, no blog despertarosentir.blogs.sapo.pt

 

 

Estou parado no tempo.

 

Contudo o sol nasce,

Obedientemente, a Leste,

Fenece obstinadamente

Onde é esperado a Oeste.

 

Estou parado no tempo.

 

Apesar do vento agonizante

Que nos beirais assobia,

Da ventania forte

Com seus cantos heroicos,

Dos vendavais a anunciar tempestades,

Das aragens amenas

Com seus segredos e cantos de serenidade.

 

Estou parado no tempo.

 

A Terra continua a girar

No seu rodopiar de pião maluco.

As marés a subirem

As marés a descerem

Sob a batuta da insensata Lua.

Os rios a nascerem em pequenas fontes,

Vão parar aos rios

Depois de passarem vales e montes.

Mais longe, ou mais perto,

As armas insensíveis

Plantam corpos na terra.

 

Estou parado no tempo  

 

O passado e o presente

Abafaram o futuro,

Adiaram-no para data incerta.

Barata tonta desafio-me a seguir.

Volto sempre ao mesmo lugar.

  Zé Onofre

23
Abr22

Comentário 251

Zé Onofre

                    251 

 

022/04/22

Sobre Sem título, por Fátima Ribeiro,    sussurrosdaminhaalma.blogs.sapo.pt  Foto na publicação.

 

Entre o céu e a terra,

Por entre o azul e o cinzento

Que o vento arrasta,

Os sonhos espreitam,

Qual sol doirado,

À procura de quem os aprecie.

 

Deitado ao acaso numa cama verde,

Descansando dos passos dados

Por veredas tantas vezes caminhadas,

De sentidos fechados

Abandonado completamente o mundo

Deixo-me levar.

 

Quem me eleva assim

Por entre o cinzento,

Por entre o azul

Como balão insuflado

De ar quente?

  Zé Onofre

23
Mar22

Dia de hoje 38

Zé Onofre

              38

 

022/03/21

 

 

O meu pai contava,

Que os avós,

Dos avós deles,

E outros ainda mais antigos,

Contavam que lá no alto mais alto,

Dos montes em redor,

Havia em tempos uma cabana,

Que já ninguém se lembrava

De que material era feito.

 

Uns diziam que era de pedra granítica,

Mas os factos desmentiam-nos,

Que de restos de pedras, nem uma areia havia.

  

Outros afirmavam que a cabana era de madeira,

Onde certamente viviam dois pobres pastores

De uma mansa e fiel ovelha.

Também a estes a realidade desmente.

Pois, depois de porfiadas investigações,

Nem a mais pequena lasca de madeira,

Nem um fio de lã, ou qualquer outra prova,

Apareceu da mansa e fiel ovelha.

 

Finalmente, outros defendiam,

Com olhos de sondar o céu,

De ouvir as vozes dos ventos,

De ler os voos das aves,

Que a cabana, da tal lenda,  

Que ficava no alto mais alto

Dos montes em redor

Era feita de musgo

E de outros materiais impensáveis

Na construção de uma cabana.

E de facto a estes a realidade não desmente.

 

Um dia de chuva e vento

Tempo péssimo para se estar em casa,

Mas perfeito para passear,

Caminhei sem destino

Que me levou ao alto mais alto

Do monte mais alto que havia em redor.

 

Abri os braços ao vento

E por mim a água escorria para o solo

Onde musgo em vários tons de verde,

Bebia da água que me havia regado.

Ali estava a prova.

A cabana era de musgo.

 Zé Onofre

23
Out21

dia de hoje 10

Zé Onofre

                10

 

2021/10/22

 

Há um murmúrio de vento

Dentro de mim.

 

Há um murmúrio de vento

Correndo solto lá fora

Dentro de mim.

 

Há um murmúrio de vento

De folhas a dançar nas árvores lá fora

Dentro de mim.

 

Há um murmúrio de vento

De ramos a gemer lá fora

Dentro de mim.

 

Há um murmúrio de vento

De copas a conversar com copas lá fora

Dentro de mim.

 

Há um murmúrio de vento

Assobiando por entre troncos lá fora

Dentro de mim.

 

Há um murmúrio de vento

Cantando na floresta lá fora

Dentro de mim.

Este murmúrio de vento

Cantando na floresta lá fora

Assobiando por entre troncos lá fora

De copas a conversar com copas lá fora

De ramos a gemer lá fora

De folhas a dançar nas árvores lá fora

Correndo solto lá fora

Dentro de mim,

Virá de onde?

 

Penso, então, naquela árvore só

Perdida à beira do caminho,

Corroída pelos anos,

Tombada pelo vento,

Tostada pelo sol,

Coçada de cansaços

Que a ela se arrimaram.

 

Aquela árvore triste, só e perdida

Ali tão fora do seu lugar

Como foi ali parar?

Foi a floresta que o abandonou,

Ou foi trazida por algum gaio maluco,

Que sem razão alguma

Largou ali a semente de que nasceu.

 

Sinto que algo de comum nos une.

As suas folhas cantam ao vento,

Melodias tristes, doridas,

De uma alma perdida sem rumo.

Talvez saibamos que não pertencemos aqui

Que ambos sofremos de saudades

Da nossa floresta natal.

06
Out21

Dia de Hoje 8

Zé Onofre

                  8

 

2021/10/06

 

Há alguns anos

Sentava-me num banco

A falar com Pascoaes

De bronze.

 

Curioso perguntei,

Àquele bronze,

De olhar sempre posto

No pequeno horizonte que lhe deram,

Que via ele

Para além do casario.

 

Uma resposta

Caiu no meu pensamento.

Que não olhava o casario,

Apenas mirava no céu

As imagens sem fim

Que o vento desenhava

Com as nuvens

No infinito azul.

 

Deitei-me naquele banco,

Onde depois me deitei muitos outros dias.

Vi Veleiros,

Vi leões, hipopótamos, elefantes,

Continentes, ilhas, penínsulas, nações,

Deuses, anjos e demónios,

Rostos e máscaras.

Todas estas imagens

Pintadas do cinzento-escuro ao claro

Por um vento forte,

Ou por ligeira brisa.

 

Num dos anoiteceres,

De Domingo, após Domingo,

Vi,

Entre pequenos farrapos cinzentos,

Pétalas derramadas por planta incógnita,

Um corpo humano.

 

Não estava colorido

De branco e cinza

Como as outras imagens.

Era rosa-transparente

Colorido pelo sol-poente.

Tão translúcido,

Tão transparente,

Que se via,

Por entre a matéria do corpo,

O sofrimento imenso

De uma alma profunda.

  Zé Onofre

22
Set21

Dia de hoje 4

Zé Onofre

                 4

 

2021/09/22

 

Num tempo,

Que tinha todo o tempo

Que o tempo tinha,

Saltava

De Terra em Terra,

De polegar espetado ao vento,

À espera que um quatro rodas

Me levasse.

 

Nesse tempo,

Em que tinha

Todo o tempo

Que o tempo tinha,

Fui parar à praia de Matosinhos,

Onde esperava abrigo

Que não encontrei.

 

Como tinha

Todo o tempo

Que o tempo tem

Recomecei a viagem,

Dedo polegar

Espetado ao vento,

Para a casa paterna

Junto ao Monte de Stª Cruz,

Junto ao Tâmega.

 

Como tinha

Todo o tempo

Que o tempo tem,

E os quatro rodas

Não viam,

Ou desviavam os olhos,

Do polegar

Espetado ao vento,

Continuei noite dentro.

 

Passo atrás de passo,

Pé à frente,

Pé atrás

Ia.

 

O sol

No seu vagar de Verão

Não se pôs,

Foi-se pondo

Tinha, como eu,

Todo o tempo

Que o tempo tem.

 

A subir a serra de Valongo,

As estrelas,

Uma depois da outra,

Acendiam-se,

Fazendo ressaltar

O azul-escuro do céu

De horizonte a horizonte.

Como Todos

Tínhamos todo o tempo

Que o tempo tinha

Eu,

Sol,

Estrelas

Até a lua  

Numa marcha

Lenta e leitosa

Apareceu

Para iluminar

Os meus passos

Serra acima,

Serra abaixo

Até onde as pernas cansadas

Encontraram descanso

Num tronco do caminho.

 

Os olhos, esses,

Continuaram

A seguir o caminhar da lua,

Gozando

Todo o tempo

Que o tempo tem,

Até ao alvorecer.

   Zé Onofre

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