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Dia de Hoje

Dia de Hoje

23
Abr22

Comentário 251

Zé Onofre

                    251 

 

022/04/22

Sobre Sem título, por Fátima Ribeiro,    sussurrosdaminhaalma.blogs.sapo.pt  Foto na publicação.

 

Entre o céu e a terra,

Por entre o azul e o cinzento

Que o vento arrasta,

Os sonhos espreitam,

Qual sol doirado,

À procura de quem os aprecie.

 

Deitado ao acaso numa cama verde,

Descansando dos passos dados

Por veredas tantas vezes caminhadas,

De sentidos fechados

Abandonado completamente o mundo

Deixo-me levar.

 

Quem me eleva assim

Por entre o cinzento,

Por entre o azul

Como balão insuflado

De ar quente?

  Zé Onofre

13
Fev22

Dia de hoje 26

Zé Onofre
26




022/02/13




Aquele homem madrugou.

‘inda o sol não espreitava na varanda das colinas,

Já ele marcava a terra arada com as suas pegadas.

O braço direito,
Agitava-se com a aragem húmida do amanhecer.

Dos seus dedos soltava-se uma poalha,

Uma ligeira sombra contra a luz que se aproximava.




Bem cedo se ergueu aquele homem.

Quem de longe o vê,

Misterioso,

Caminhar na terra lavrada,

A esbracejar contra o infinito,

Ao lusco-fusco do amanhecer

Apenas pode imaginar   

Que faz ali o homem antes do sol raiar

Por entre o gradeamento colorido,

Lá do alto das varandas das colinas.

Lança sementes à terra?

Lança sonhos ao infinito?

Lança ilusões ao sol, finalmente, nascente?

Seja que semente for,

Que a seara multiplique os seus desejos,

Que o sol tardio veio espreitar.

Zé Onofre
22
Dez21

Dia de hoje 21

Zé Onofre

              21

 

021/12/22, Café Martins, Amarante             

 

               I

 

Hoje percorri

Em passo lento e desalentado

Antigos trilhos da juventude

 

Hoje, ao percorrer

Aqueles antigos trilhos,

Senti-me um trapo.

 

Senti-me um trapo

Velho, sujo e roto

Pelos atalhos que tomei.

 

Atalhos que tomei

Consciente ou inconsciente

Foram as vias que escolhi.

 

As vias que escolhi

Que me levaram tão longe

Do futuro que me imaginei.

 

Do futuro que me imaginei,

Sem peias, nem amarras,

Sem poiso, nem morada.

 

Sem poiso e sem morada,

Vagabundo da vida,

Vivendo o dia-a-dia.

 

Vivendo o dia-a-dia

Como se fosse o primeiro

De uma vida sempre a renascer.

 

Trilhos antigos que me levaram

A mirar o velho Tâmega,

Cemitério de sonhos mortos.

 

Trilhos antigos

De onde mirei velhos telhados,

Verde musgo de voos caídos.

 

Trilhos antigos

Atapetados de douradas folhas

Coberta leve de futuros mortos.

 

Trilhos antigos

Iluminados por relâmpagos

Que se evadem deste trapo roto.

 

Trilhos antigos,

Sonhos mortos,

Vida suspensa.

 

                II

    

Não sei onde pertenço.

A certidão de nascimento

Menciona uma localidade.

 

A experiência de vida

Diz-me que é mentirosa

A certidão de nascimento.

 

É mentirosa.

Sinto-me nascido

Numa localidade que não há.

 

Contudo sei que nasci

Naquela localidade inexistente,

A mais bela do mundo.

 

É atravessado,

De Norte para Sul por um fio

De água pura a pratear os campos.

 

De Sudoeste para Nordeste

Atravessa-a uma fita negra

Tecida a alcatrão.

 

A Oeste uma colina

Que rapidamente desce

Para um riacho.

 

A leste outra colina

Que, de salto em salto,

Se vai banhar no rio.

 

No seu Centro, descentrado,

Há uma escola

Que ensina os mistérios do Além.

 

No seu Centro, descentrado,

Situa-se a escola

Que ensina o aqui e agora.

 

No seu Centro, descentrado,

Um perfume doce exala-se

Das tílias que o ornamentam.

 

Nessa localidade inexistente,

Mas que é de tal grandeza

Que nenhum mapa a contém.

 

Lá, dei os primeiros passos.

Lá, disse a primeira vez pai e mãe.

Lá, dei a primeira risada.

 

Minha Terra tão querida.

Minha Terra tão bonita.

Minha Terra tão inexistente.

   Zé Onofre

05
Dez21

Dia de hoje 15

Zé Onofre

              15 – Falar de letras

 

021/12/05

 

Pela calada da noite,

Pego em histórias e memórias,

Alegrias e ecos.

Em silêncio crio alfabetos,

Letras aleatórias, feitas de traços,

Por alguns sumérios ou egípcios,

Mas não só as criadas nas margens

Do Tigre e do Eufrates, ou do Nilo.

 

Chegam-me vagabundas e livres,

Sentam-se lá fora, no peitoril da janela.

Primeiro uma devagar um pouco tímida,

Um pouco ousada e destemida,

Entra pela friesta entre os caixilhos,

E pousa delicadamente no meu papel.

Após esta solitária, outras aos pares, ou não,

Plenas de força, senhoras do tempo,

Curiosas, aconchegam-se à primeira.

 

Umas chegam, cheias de deferência, da China.

Outras perfumadas e coloridas, vêm da India.

Outras, sempre apressadas, vêm da Fenícia.

Por fim, ordeiras, filosóficas chegam da Grécia.

 

Brinco com elas.

Junto-as, aparto-as,

Ficam sílabas suspensas

À procura de parceiras,

Para que das brumas nasçam palavras.

 

Cada letra desnecessária dissipa-se.

As outras formam palavras

Com significados e sonhos opostos.

No meu quarto, já cercado pelo sono,

Consigo ainda carregar algumas.

Já adormecido, escrevem o teu nome.

Zé Onofre

14
Out21

Dia de Hoje 9

Zé Onofre

9

2021/10/14

 

Era uma vez uma casa.

 

Era uma vez um quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez uma cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um jovem

Que dormia na cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um menino

Que dormia com o jovem

Que dormia na cama

Que dormia no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um jovem

Que contava historinhas

Ao menino que com ele dormia

Na cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um menino

Que dormia sonhando

Com as historinhas

Que o jovem irmão

Lhe contava na cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um menino

Que se levantava da cama

Que saía em sonhos

Pela janela

Daquele quarto

Que ficava na casa.

 

 

 

 

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