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Dia de Hoje

Dia de Hoje

17
Out22

Dia de hoje 70 - Canto tiste Vi

Zé Onofre

               70

 

Canto triste VI

 

022/10/17

 

Já não há poetas trovadores

Que cantem a nossa desgraça.

Não há quem semeie as dores

Sequer no vento ligeiro que passa.

 

Os cantores que há, não sabem

Ir de Terra em Terra animar a malta.

Que cantem traz um amigo também

Todos, vivos e idos, fazemos falta.

 

Os sanguessugas não temem nada,

Chupam-nos o sangue à luz do dia.

Os poetas vêem esvair-se a manada

E não denunciam a forte sangria.

 

Não há poetas que numa só canção

Dizerem a liberdade está por vir

Virá com pão, habitação e educação,

Que o povo seja dono do que produzir.

15
Out22

Dia de hoje 68 - Canto triste IV

Zé Onofre

              68

 

    Canto triste IV

 

022/10/14

 

Como nos deixamos derrubar?

Vínhamos tão bem seguros

Da luta, lá longe começada,

Tãolonge para agora acabar,

Sem serem atingidos os futuros,

Que nossos avós iniciaram do nada.

 

Olhemos, para ver, à nossa volta 

Para ver se entendemos em que curva

Da longa caminhada nos perdemos.

Como é que a gente de esperança à solta

Como bandeira, de remente fica turva

Desistindo de ter o futuro que merecemos.

 

Será que acreditamos nos agourentos

Que diziam que estávamos enganados,

Que uma sociedade onde a gente é igual,

Só cabe na cabeça duns loucos violentos?

Porém, havia mais loucos entusiasmados

Com uma sociedade sem a ditadura do capital.

 

O capital, como qualquer outo poder,

Não vai desistir. Muda de estratégia.

Muda o rosto, e cria a social-democracia.

Consegue, com essa farda, não perder

O comando. Finge que recua, demagogia,

E com boa publicidade é só esperar para ver.

 

Como é que tantos se deixaram enganar?

Não sabem que ninguém dá nada de graça?

Assim iludidos tornaram-se bons aliados

De quem vive apenas para os explorar.

Nos gabinetes há quem idealiza e traça

O modo de vencer os mais desconfiados.

 

Como nos deixamos derrubar?

Vinha de longe, de tão longe a luta,

Conquistando tanto, para perder tudo,

Que custou suor e sangue a conquistar.

Talvez tenhamos perdido o dom da escuta

E o nosso discurso tivesse ficado mudo. 

 

E agora o que nos resta para fazer

Neste tempo tão difícil para lutar?

De longe, tão longe, aqui chegamos

Para arribar à praia e desfalecer?

Não meus irmãos, temos que continuar.

Se não, por que é que aqui estamos?

  Zé Onofre

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