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Dia de Hoje

Dia de Hoje

23
Abr22

Comentário 252

Zé Onofre

                    252 

 

022/04/23

 

Sobre SER QUEM SOMOS ..., por Romi, em desabar.blogs.sapo.pt, em 022/04/22- Foto na publicação

 

Estarmos à distância de um clique é pura ilusão.

Nem que o clique permita

Olharmo-nos olhos nos olhos

Ouvir nos lábios o que dizemos,

Há coisas que o clique não faz.

Sentir o perfume

Secar uma lágrima fugidia

Com a suavidade da toalha dos lábios,

Abraçar com ternura um desgosto,

Ou de alegria dançarmos

Nem que seja uma canção de roda.

O clique é a ilusão da proximidade.

Por isso ainda há uma nostalgia húmida

Quando a partida me separa.

   Zé Onofre

22
Dez21

Dia de hoje 21

Zé Onofre

              21

 

021/12/22, Café Martins, Amarante             

 

               I

 

Hoje percorri

Em passo lento e desalentado

Antigos trilhos da juventude

 

Hoje, ao percorrer

Aqueles antigos trilhos,

Senti-me um trapo.

 

Senti-me um trapo

Velho, sujo e roto

Pelos atalhos que tomei.

 

Atalhos que tomei

Consciente ou inconsciente

Foram as vias que escolhi.

 

As vias que escolhi

Que me levaram tão longe

Do futuro que me imaginei.

 

Do futuro que me imaginei,

Sem peias, nem amarras,

Sem poiso, nem morada.

 

Sem poiso e sem morada,

Vagabundo da vida,

Vivendo o dia-a-dia.

 

Vivendo o dia-a-dia

Como se fosse o primeiro

De uma vida sempre a renascer.

 

Trilhos antigos que me levaram

A mirar o velho Tâmega,

Cemitério de sonhos mortos.

 

Trilhos antigos

De onde mirei velhos telhados,

Verde musgo de voos caídos.

 

Trilhos antigos

Atapetados de douradas folhas

Coberta leve de futuros mortos.

 

Trilhos antigos

Iluminados por relâmpagos

Que se evadem deste trapo roto.

 

Trilhos antigos,

Sonhos mortos,

Vida suspensa.

 

                II

    

Não sei onde pertenço.

A certidão de nascimento

Menciona uma localidade.

 

A experiência de vida

Diz-me que é mentirosa

A certidão de nascimento.

 

É mentirosa.

Sinto-me nascido

Numa localidade que não há.

 

Contudo sei que nasci

Naquela localidade inexistente,

A mais bela do mundo.

 

É atravessado,

De Norte para Sul por um fio

De água pura a pratear os campos.

 

De Sudoeste para Nordeste

Atravessa-a uma fita negra

Tecida a alcatrão.

 

A Oeste uma colina

Que rapidamente desce

Para um riacho.

 

A leste outra colina

Que, de salto em salto,

Se vai banhar no rio.

 

No seu Centro, descentrado,

Há uma escola

Que ensina os mistérios do Além.

 

No seu Centro, descentrado,

Situa-se a escola

Que ensina o aqui e agora.

 

No seu Centro, descentrado,

Um perfume doce exala-se

Das tílias que o ornamentam.

 

Nessa localidade inexistente,

Mas que é de tal grandeza

Que nenhum mapa a contém.

 

Lá, dei os primeiros passos.

Lá, disse a primeira vez pai e mãe.

Lá, dei a primeira risada.

 

Minha Terra tão querida.

Minha Terra tão bonita.

Minha Terra tão inexistente.

   Zé Onofre

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