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Dia de Hoje

Dia de Hoje

30
Abr22

Comentário 255

Zé Onofre

                     255

 

022/04/29

 

Sobre, O Equívoco de Se Ser, por Cuca Margoux, em 022/04/27, no blog aesquinadodesencontro.blogs.sapo.pt

 

Saberei eu quem sou?

Ou sou o que imagino ser?

Ou apenas serei uma imagem

Reflectida nos olhos de alguém?

 

Que imagem é aquela reflectida,

Que olho nos olhos da gente

Que apressada, ou lenta, passa

Por esta sombra vagabunda.

 

Serei a sombra fugidia nos olhos

Da gente que apressada vai sem destino,

Ou aquela sombra quase parada

Nos olhos de quem não tem para onde ir.

 

Conhecendo-me, ou desconhecendo-me,

Sei que caminho pela vida como sombra

De um eu que vive, sofre e interroga,

O caminho por onde passo a passo vou.

  Zé Onofre

18
Fev22

Dia de hoje 27

Zé Onofre

               27

 

022/02/16

 

 

Hoje subi à varanda do meu quarto.

Lá, do alto da casa

Largo a grade onde me debruçara,

Elevo os olhos ao céu cinzento,

Avaro da sua água

Que o sequioso Tâmega

Bem agradeceria.

 

Hoje subi à varanda do meu quarto.

Lá, do alto da casa,

Elevo os olhos ao cinzento.

Entre este cinzento

E o verde dos campos

(Onde ainda ontem bois mansos

Puxavam velhos arados

Com um homem cansado à rabeta

Lavravam a terra)

Avisto asas indefinidas

Que se confundem com o manto cinzento

Bordado de azul fugidio.

 

Hoje subi à varanda do meu quarto.

Lá do alto da casa,

De novo debruçado nas grades,

Vejo plantadas, no verde tapete dos campos,

Algumas casas.

Umas  florescidas do telha-vivo,

Ao telha-velho enverrugado de verde.

 

Hoje subi à varanda do meu quarto.

Lá, do alto da casa,

Debruçado nas grades

Entre os vários tons das flores-telha,

Uma destoa espreitando

Por entre as folhas sempre verdes

De uma árvore centenária.

 

Hoje subi à varanda do meu quarto.

Lá, do alto da casa,

Debruçado nas grades

Os ouvidos prendem-se

Às histórias do meu quase centenário primo.

Contava das longas noites de Inverno.

Então os seus olhos azuis-límpidos

Aguavam por de trás das lentes

Enquanto sorriam  também

Com a visão do pai Quim e da mãe Rita

Sentados à lareira, mais a tia Adelaide,

E mais tarde o ti' Zé Alfaiate.

Entrava mudo, saía calado

Sempre com a beata colada no canto da boca.

Neste ponto, quando os olhos

Ameaçavam desaguar rosto abaixo,

Recolhia a água às suas fontes

E os olhos estrelhejavam ao falar de um miúdo

Que afoitamente subia aquela árvore,

Já então mais alta que a casa.

 

Lá em cima, no alto da casa,

Debruçado nas grades

Da varanda do meu quarto onde subi

Penso ter visto, na alegria sorridente

Do miúdo no alto da árvore,

Uma amostra da Felicidade.

    Zé Onofre

30
Jan22

Dia de hoje 24

Zé Onofre

              24

 

022/01/29

Bem me diziam,

Porém nunca quis acreditar.

Há mais coisas, nas coisas que vemos,

Do que aquelas que vemos nas coisas.

 

De olhos presos numa parede preta,

Apenas o preto se alcança.

Que mais poderá haver para além

Do negrume?

 

Mas quem diz que aquele negro,

Que me ensombra o olhar,

É uma parede

E não a noite a desabrochar?

 

Fecha os olhos, uma voz,

Ou um sussurro apenas,

Ordena imperativamente.

Assim faço.

Quando os abro,

O negro sombrio é apenas uma tela

De onde cores inesperadas

Parece que evoluem suspensas no ar.

 

Que mistério se esconde

Por de trás daquela tela?

Talvez uma criança inexistente

Sopre de lá apalpáveis bolas  de sabão.

Zé Onofre

16
Dez21

Dia de hoje 19

Zé Onofre

              19

 

021/12/16

 

                    I

 

Era uma vez uma menina.

Era uma vez uma mesa.

Era uma vez um frasco de cola.

Era uma vez uma parede.

 

                    II

 

Era uma vez uma menina …

Em casa, sozinha,

Sem nada para fazer.

Já tinha olhado

A paisagem além da janela.

Já tinha pegado num livro

Leu duas páginas e cansou-se.

Já tinha pegado em lápis,

Em tintas e pincéis.

Nem a pintura e o desenho

Lhe interessaram.

 

                    III

 

Era uma vez uma mesa.

Desanimada sentou-se à mesa.

Passou os olhos pelo quarto.

Nem a cama a seduzia.

A um canto um cesto de papéis

Esperavam a ordem de despejo.

Mais além, fora de lugar,

Um rolo de papel de cenário,

Esperava ordem de se arrumar.

Levantou-se pegou no rolo,

Inerte largou-o em cima da mesa.

 

                     IV

 

Era uma vez um frasco de cola.

A menina olhou-o por um momento.

De seguida mirou o rolo de papel.

Num canto da mesa uma tesoura.

No canto o cesto dos papéis.

Os seus olhos brilharam.

Desenrolou o papel.

Foi buscar o cesto dos papéis.

Pegou num dos papéis.

Uma tesourada, uma pincelada de cola.

Deitou-os, cada um no seu canto, do papel.    

 

                     V

 

Era uma vez uma parede.

Na mesa do quarto ia grande azáfama.

Uma menina tesourava e colava,

Na mesa o papel de cenário

Estava quase vestido de papéis.

Mais papel, menos papel e pronto.

Ainda havia papel nas mãos pegajosas.

Colou papel sobre papel, feliz com a sua obra.

O chão ladrilhado de papelinhos, que importava?

Faltava um último retoque, arrumar a sua arte.

Com todas os requintes pendurou-a na parede.

Zé Onofre 

30
Set21

Dia de hoje 6

Zé Onofre

                       6

 

2021/09/30

 

Era Verão.

A aragem do regato

Amainara o calor do dia.

Já se podia jogar

No largo do cruzeiro.

 

No meio

Da brincadeira dos grandes

Um miúdo corria.

Embora a idade fosse pouca

Para o jogo dos maiores

Divertia-se.  

 

O lusco-fusco

Chegava.

Com ele uma sombra,

Vinda não se sabia de onde

Desapareceu com o pequenito

Estrada acima.

 

A rapaziada mais velha

Somente se apercebeu

Que algo de errado acontecera

Quando viram o pequeno

A descer a estrada

Tremendo como varas verdes.

 

Vinha de cabelo no ar,

Os olhos grandes como bugalhos,

A boca aberta

De lábios paralisados.

 

Parecia pedir socorro,

Mas qualquer som saía da boca horrorizada.

Naquela boca

Tudo paralisara

As cordas vocais,

A língua.

Daqueles lábios

Nada saía

Sequer um grito.

        Zé Onofre

22
Set21

Dia de hoje 4

Zé Onofre

                 4

 

2021/09/22

 

Num tempo,

Que tinha todo o tempo

Que o tempo tinha,

Saltava

De Terra em Terra,

De polegar espetado ao vento,

À espera que um quatro rodas

Me levasse.

 

Nesse tempo,

Em que tinha

Todo o tempo

Que o tempo tinha,

Fui parar à praia de Matosinhos,

Onde esperava abrigo

Que não encontrei.

 

Como tinha

Todo o tempo

Que o tempo tem

Recomecei a viagem,

Dedo polegar

Espetado ao vento,

Para a casa paterna

Junto ao Monte de Stª Cruz,

Junto ao Tâmega.

 

Como tinha

Todo o tempo

Que o tempo tem,

E os quatro rodas

Não viam,

Ou desviavam os olhos,

Do polegar

Espetado ao vento,

Continuei noite dentro.

 

Passo atrás de passo,

Pé à frente,

Pé atrás

Ia.

 

O sol

No seu vagar de Verão

Não se pôs,

Foi-se pondo

Tinha, como eu,

Todo o tempo

Que o tempo tem.

 

A subir a serra de Valongo,

As estrelas,

Uma depois da outra,

Acendiam-se,

Fazendo ressaltar

O azul-escuro do céu

De horizonte a horizonte.

Como Todos

Tínhamos todo o tempo

Que o tempo tinha

Eu,

Sol,

Estrelas

Até a lua  

Numa marcha

Lenta e leitosa

Apareceu

Para iluminar

Os meus passos

Serra acima,

Serra abaixo

Até onde as pernas cansadas

Encontraram descanso

Num tronco do caminho.

 

Os olhos, esses,

Continuaram

A seguir o caminhar da lua,

Gozando

Todo o tempo

Que o tempo tem,

Até ao alvorecer.

   Zé Onofre

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