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Dia de Hoje

Dia de Hoje

10
Mai22

Comentário 264

Zé Onofre

               264  

 

022/05/10

 

Sobre Teimosamente, por Isabel Silva em 6/05/22 no blog imsilva.blogs.sapo.pt

 

 

Que mistérios guardarão as lágrimas,

Nascidas das rochas puras dos olhos?

Nenhum segredo, nenhum tesouro,

“Água quase tudo e cloreto de sódio.”
 

Se são todas assim tão simples,

Qual a razão de umas serem alegres

Como um campo de malmequeres

Em dias de primavera?

 

Se são todas assim tão simples,

Qual a razão de outras serem puras

Como um ramo de açucenas

Nas manhãs de uma criança?

 

Se são todas assim tão simples,

Qual a razão de algumas serem quentes

Como um campo vermelho de papoilas,

Que irrompem dos campos jovens?

 

Se são todas assim tão simples,

Porque é que as há tão frias,

Como lírios brancos pousados

Em canteiros sem vida?

 

Se são todas assim tão simples,

Por que as tão dolorosas

Como canteiros de belas rosas

Que atraem incautos para os arranhar?

 

Se são todas assim tão diferentes,  

Nascentes dos nossos olhares,

É preciso analisá-las outra vez

Para sabermos que novos ingredientes

Há na “água quase tudo e cloreto de sódio”.
 Zé Onofre

07
Jan22

Dia de hoje 23

Zé Onofre

              23

 

022/01/07

 

Ontem segui os meus passos.

Deixei-me guiar

Por caminhos dos meus olhares.

Parei frente à janela

Da “moleirinha”,

Do “ai há quantos anos…”,

Da “velha, da cabaça e do lobo”,

Das noites escuras estreladas,

Dos campos verdes a bordejar de água,

Dos milheirais amarelecendo,

Do fio de água

Feito lago grande

Presa num muro de pedra feito barragem.

 

Os meus olhares,

Que foram atrás dos meus passos,

Ainda tentam ver

Nos recantos do passado

Os meus amigos da escola e da catequese.

 

Meus companheiros,

Do alvorecer da vida,

A serpentear por entre os pés de milho,

A mergulharmos nus,

Ou em cuecas,

Naquele eterno lago,

Que o fio ténue de água

Descendo do alto da encosta

Vem alimentar.

 

Num outro quadro do passado

Vislumbro-me aninhado ou dobrado

Com os meus amigos de brincadeiras  

Nas bordas daqueles campos  

Que rodeavam aquele fio de água –

Que regará campos,

Moverá moinhos.

Rodas de fabriquetas,

Antes de se atirar ao mar

Depois de acompanhar rabelos –

A apanhar uns frutinhos vermelhos

Perfumados de aroma silvestre,

Morangos tão saborosos,

Mil vezes mais saborosos

Do que os enormes e vistosos,

Nascidos no mimoso cativeiro das estufas.

  

O nevoeiro do passado levanta-se.

São agora os meus olhos tristes

Que escorrem água salgada

Para o lago-memória

Que trago em mim.

 

Meus companheiros

De escola e catequese,

Meus amigos recolectores de frutos silvestres,

Mataram aquele fiozinho de água,

Onde no verão refrescávamos os corpus nus,

Apenas cobertos pelos milheirais.

As pequenas encostas,

Onde cresciam livres,

Saborosos e perfumados morangos.

Aquele fiozinho de água

Que levava misturado  os nossos risos,

Através de campos,

Moinhos,

Fabriquetas,

A acompanhar rabelos até se dissolver no mar.

  

Meus companheiros

De escola e catequese

Mataram aquele regatinho

Onde ontem sonhávamos aventuras.

Hoje, aquele leito que foi de água corrente,

É uma parada linha negra,

Por onde passam correndo

Pessoas, prisioneiras de máquinas,

Com destino marcado

Sem tempo para sonhar.

   Zé Onofre

 

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