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Dia de Hoje

Dia de Hoje

05
Dez21

Dia de hoje 15

Zé Onofre

              15 – Falar de letras

 

021/12/05

 

Pela calada da noite,

Pego em histórias e memórias,

Alegrias e ecos.

Em silêncio crio alfabetos,

Letras aleatórias, feitas de traços,

Por alguns sumérios ou egípcios,

Mas não só as criadas nas margens

Do Tigre e do Eufrates, ou do Nilo.

 

Chegam-me vagabundas e livres,

Sentam-se lá fora, no peitoril da janela.

Primeiro uma devagar um pouco tímida,

Um pouco ousada e destemida,

Entra pela friesta entre os caixilhos,

E pousa delicadamente no meu papel.

Após esta solitária, outras aos pares, ou não,

Plenas de força, senhoras do tempo,

Curiosas, aconchegam-se à primeira.

 

Umas chegam, cheias de deferência, da China.

Outras perfumadas e coloridas, vêm da India.

Outras, sempre apressadas, vêm da Fenícia.

Por fim, ordeiras, filosóficas chegam da Grécia.

 

Brinco com elas.

Junto-as, aparto-as,

Ficam sílabas suspensas

À procura de parceiras,

Para que das brumas nasçam palavras.

 

Cada letra desnecessária dissipa-se.

As outras formam palavras

Com significados e sonhos opostos.

No meu quarto, já cercado pelo sono,

Consigo ainda carregar algumas.

Já adormecido, escrevem o teu nome.

Zé Onofre

27
Out21

Dia de hoje 11

Zé Onofre

                    11

2021/10/27

No ponto mais alto,

Do monte mais alto

Da freguesia

Uma torre acastelada

Que servia de vigia.

 

Essa torre

Que ficava no monte mais alto

Tornava ainda mais alto

O cume mais alto

Da freguesia.

 

Nessa torre,

Que ficava no cume mais alto

Do monte mais alto

Da freguesia,

Vivia em solidão,

Noite e dia,

O Sentinela.

 

Numa noite de luar

Cansado da solidão

Desceu o moço sentinela

A semelhança de escadaria

Que do alto da torre vigiava o longe

Noite e dia.

 

Olhava as estrelas

Acompanhando com o alaúde

As suas canções de amigo

A que apenas o luar e solidão

Prestavam atenção.

 

Embalado na sua canção

Avança distraído.

Nem com o luar no seu esplendor,

Atentou num tronco caído

Que lhe passou uma rasteira

Que o deixou no chão sem sentidos,

Sem dar um suspiro de dor.

 

Apenas acorda com a aurora orvalhada.

Descobre a seu lado

Uma jovem ao sono abandonada,

Sob um manto de arbustos floridos

Sem dúvida feito à sua medida.

 

Agora,

No cimo da torre

Que fazia mais alto

O cume mais alto

Do monte mais alto

Da freguesia,

O jovem sentinela

E  jovem que encontrara,

Naquela solidão tão lá no alto

Sob o manto dos arbustos floridos,

Beijavam-se candidamente

  Zé Onofre

.

22
Set21

Dia de hoje 4

Zé Onofre

                 4

 

2021/09/22

 

Num tempo,

Que tinha todo o tempo

Que o tempo tinha,

Saltava

De Terra em Terra,

De polegar espetado ao vento,

À espera que um quatro rodas

Me levasse.

 

Nesse tempo,

Em que tinha

Todo o tempo

Que o tempo tinha,

Fui parar à praia de Matosinhos,

Onde esperava abrigo

Que não encontrei.

 

Como tinha

Todo o tempo

Que o tempo tem

Recomecei a viagem,

Dedo polegar

Espetado ao vento,

Para a casa paterna

Junto ao Monte de Stª Cruz,

Junto ao Tâmega.

 

Como tinha

Todo o tempo

Que o tempo tem,

E os quatro rodas

Não viam,

Ou desviavam os olhos,

Do polegar

Espetado ao vento,

Continuei noite dentro.

 

Passo atrás de passo,

Pé à frente,

Pé atrás

Ia.

 

O sol

No seu vagar de Verão

Não se pôs,

Foi-se pondo

Tinha, como eu,

Todo o tempo

Que o tempo tem.

 

A subir a serra de Valongo,

As estrelas,

Uma depois da outra,

Acendiam-se,

Fazendo ressaltar

O azul-escuro do céu

De horizonte a horizonte.

Como Todos

Tínhamos todo o tempo

Que o tempo tinha

Eu,

Sol,

Estrelas

Até a lua  

Numa marcha

Lenta e leitosa

Apareceu

Para iluminar

Os meus passos

Serra acima,

Serra abaixo

Até onde as pernas cansadas

Encontraram descanso

Num tronco do caminho.

 

Os olhos, esses,

Continuaram

A seguir o caminhar da lua,

Gozando

Todo o tempo

Que o tempo tem,

Até ao alvorecer.

   Zé Onofre

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