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Dia de Hoje

Dia de Hoje

13
Mai22

Comentário 265

Zé Onofre

                265 

022/05/11

 

 Sobre Mágicos instante! por Lu, no dia 07/05/022, no   blog aquihacoracao.blogs.sapo.pt

 

Era uma vez…

E as coisas eram tão mais doces

Nos dias em que a avó começava

Era uma vez…

 

Vivia longe, muito longe,

Daquele reino que existira

Há muitos, muitos anos,

Onde um cavaleiro

Cavalgava, cavalgava

Sem parar

E havia sempre mais reino

Para cavalgar.

 

Era uma vez …

A voz da avó

Levantava-se, lá da infância,

Doce como só a dela

Conseguia acalmar

O galope desenfreado de um coração.

 Zé Onofre

07
Mai22

Dia de hoje 45

Zé Onofre

                 45

 

022/05/07

 

O meu primeiro dia

De preto e amarelo vestida,

Foi o dia mais especial da minha vida.

 

Antes de sair tive mil cuidados.

Alisei o meu fato aveludado

Muito pormenorizadamente

Com a penugem das minhas patas.

 

A seguir passeei a minha beleza

Pelo palácio.

As da minha idade olhavam-me,

Escondendo atrás do seu desdém,

A inveja do meu aspecto

Tão limpo, elegante e deslumbrante.

 

As mais velhas olhavam-me

Com um ar nostálgico

Rememorando certamente o seu dia primeiro.

 

Coloquei-me no varandim do palácio.

Iniciei o meu voo com as pernas a tremer,

O que não me impediu de fazer,

Antes de me aventurar pelo azul,

Um voo rasante ao tapete verde.

As novas já se riam do meu fiasco,

Enquanto as mais práticas bateram as patas

Quando me viram elevar,

Com graciosidade, por sobre as flores,

As árvores quase a florir,

Até o jardim mais próximo.

 

Lá havia pessoas sentadas em bancos.

Umas dormitavam cabeceando o jornal.

Outros enfronhados na leitura,

Não estavam ali.

Alguns olhavam o céu sonhador,

Enquanto os enamorados se beijavam,

Também eles longe dali.

 

De uma estátua de pedra,

Retrato de um menino a mijar,

Caía água que enchia um lago.

Neste, meninos a sério, em cuecas,

Refrescavam-se na água esverdeada,

Por entre as algas que flutuavam

Ondulantes pelosseus mergulhos.  

Poisei no menino de pedra, dessedentei-me.

Levantei novo voo,

Dei uma volta àquele jardim encantado,

Parti para nova viagem pelo desconhecido.

Em cada canto havia algo de misterioso,

Para a minha inexperiente vida,

Onde me perdia extasiada.

 

Quando regressei ao meu palácio,

Parei no varandim

Olhando para além do relvado,

Já com saudades daquela bela viagem.

Quando me preparava para entrar,

Todas apreciavam as minhas pernas

Com ar de espanto.

Será que são assim tão belas,

Interroguei-me intrigada.

 

As minhas pernas estavam tão limpas

Como no momento da partida,

O que era um escândalo.

Deveria ter regressado

Com elas gordas de pólen,

E pesada do estômago carregado de néctar.

Mostrei-me falsamente envergonhada,

Porém com a cabeça repleta de memórias

Que me acompanham até hoje.

Zé Onofre

20
Abr22

Dia de hoje 42

Zé Onofre

                   42

 

022/04/20

 

Longe, longe

Nas curvas e contracurvas

Da caminhada que aqui me trouxe,

Ficaram perdidas tantas coisas

Que julgava nunca terem acontecido.

  

De repente, nas curvas e contracurvas,

Da caminhada,

Que continua ainda,

Aparece um sinal que me atira lá atrás

Onde me vejo já sombra esbatida

E gasta pelo tempo.

 

Ainda assim, por entre o nevoeiro

Do passado e dos olhos molhados,

Consigo ver uns rapazitos a brincar

Estrada abaixo, estrada acima,

A brincar ao bate-e-fica,

Como se dizia na minha aldeia

Que noutras bandas era à caçadinha.

 

Num outro quadro é noite,

Noites longas da Missa do Galo,

Da quinta-feira Santa,

Do sábado da Aleluia,

Das Festas da Ascensão,

Da srª da Graça

E da Assunpção,

Que duravam ainda mais

Nas canções de roda,

Na bruxa-da-ajuda,

Do quem-me-livra,

No jogo das escondidas,

Que às vezes de tanto cansaço,

Se adormecia no esconderijo,

E somente se acordava ao sol nascente.

 

Um último quadro.

Uma casa em construção

Com paredes graníticas,

Vãos de portas e janelas a começar.

Nas esquinas olhos espreitam,

Um corpo pequeno avança,

De braço estendido.

Segura na mão uma pequena pistola

 – Feita de madeira

Que atira balas feitas de ramo de choupo

Projectadas por uma tira de câmara de ar –

Efeitos do “Bonanza”,

Que nos punha a jogar aos «cowboys».

  Zé Onofre 

28
Nov21

Dia de Hoje 14

Zé Onofre

14

 

021/11/28

 

Naquele dia,

Como em muitos outros dias

A ele iguais

As coisas aconteceram

Como deveriam acontecer.

 

O sol envergonhado,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Levantou-se fraco,

Após as longas viagens do Verão.

Custou-lhe, com os seus cansados braços,

Romper o manto cinzento

Tecido a pérolas líquidas.

 

Quando finalmente,

O sol mostrou o seu rosto descorado,

Como acontecia em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Já o dia ia longe na sua rotina

De todos os dias.

 

Desde a madrugada que os padeiros,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Trabalham arduamente.

Foram os primeiros a cumprimentar

O dia que custosamente amanhecia.

 

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Preparam o dejejum para os que cedo

Foram para o trabalho

De todos os dias.

 

Das padarias saiu

Para todos os lares o pão de cada dia.

De portas abertas toda a noite,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Os noctívagos folgazões da aldeia

Acolheram-se ao calor dos fornos

E dos pães quentes com manteiga.

 

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Também os tascos

Precisaram de ser servidos de pães

Antes que o movimento

Começasse a entrar pelas portas.

 

Eram os clientes de todos os dias

Que, como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Tiritantes e esfregando as mãos

Passariam pela porta entreaberta.

Camioneiros, viajantes de todas as estradas,

Operários da construção civil,

E outros que antes do trabalho duro

Metem uma bucha à boca.

 

Enquanto comentavam o tempo,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Dizem que aquele dia cinzento

É mais frio que o do ano passado.

 

Naquele dia,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Pararam desconhecidos,

Vindos de algures

E se dirigiam a nenhures

Pediram, foram servidos,

Calados comeramm

E calados se foram como chegaram.

 

Na escola em frente

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Os alunos chegaram

Rostos corados pelo esfregar das mãos

Que espantaram o frio.

As suas narinas eram chaminés

De onde fuminho pesado e húmido

Ficava suspenso frente aos seus olhos.

 

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Também naquele dia

O professor abriu-lhes a porta severa,

Seguindo-os para a sala.

De pé realizaram os preliminares da praxe.

Então, começaram verdadeiramente a aula.

  

Naquele dia a rotina fora a mesma,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia.

Períodos silenciosos,

Cortados pela fala zangada do professor,

Ou pelo som seco da “milagrosa”,

Nas frágeis mãozinhas das crianças,

Acompanhadas da oração do costume

- Se não te entra pela cabeça

Entra-te pela pele.

 

Mães de família,

Criadas das senhoras Donas,

Também naquele dia,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Fizeram as compras do dia.

 

Entretanto,

A criançada libertada da escola/gaiola

Quais pintassilgos selvagens

Apanhados traiçoeiramente em “alçapões”,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Jogaram à macaca,

Saltaram à macaca,

Deram voltas à igreja

Com promessas de pontapés na bola-de-trapos,

Mas as canelas é que se queixaram.

 

A noite anunciou-se.

A miudagem recolheu-se a casa

Ao mesmo tempo que os pais

Que, derreados, chegaram do trabalho.

 

Naquele dia,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Alguns homens desocupados

Jogaram à bisca lambida,

Enquanto bebericavam por uma caneca de grés

Uns golitos do verde tinto carrascão.

 

Ora, já entrada a noite daquele dia,

Que não seria como todos os outros dias

Que até aí tinham sido iguais àquele dia,

Um casal jovem entrou,

Cumprimentou baixinho os que estavam

E ainda com voz ténue perguntou ao taberneiro

- Onde podemos passar a noite?

 

Entretanto os batoteiros pararam de as bater,

Arrebitaram as orelhas.

Um, de ouvido mais apurado,

Levantou um pouco a voz,

Para não perturbar o silêncio,

Reforçado pelas sombras fantasmagóricas

Projectadas nas paredes pela fraca lâmpada,

Disse

- Só se for na padaria. Está aberta toda a noite,

Está quente do forno e há sempre sacos de farinha

Que servirão de cama e cobertor.

 

Dito isto levantou-se e acompanhou o casal

Ao albergue improvisado.

O Padeiro, acomodou-os o melhor que pôde

Num cantinho aconchegado.

O casal fatigado enfim teve descanso.

Foi na hora dos noctívagos folgazões chegarem

Que a jovem começou com dores.

Os amigos não foram servidos com pão e manteiga,

Eles é que serviram de parteiros,

Ao bebé que naquele momento nascia.

  Zé Onofre

27
Out21

Dia de hoje 11

Zé Onofre

                    11

2021/10/27

No ponto mais alto,

Do monte mais alto

Da freguesia

Uma torre acastelada

Que servia de vigia.

 

Essa torre

Que ficava no monte mais alto

Tornava ainda mais alto

O cume mais alto

Da freguesia.

 

Nessa torre,

Que ficava no cume mais alto

Do monte mais alto

Da freguesia,

Vivia em solidão,

Noite e dia,

O Sentinela.

 

Numa noite de luar

Cansado da solidão

Desceu o moço sentinela

A semelhança de escadaria

Que do alto da torre vigiava o longe

Noite e dia.

 

Olhava as estrelas

Acompanhando com o alaúde

As suas canções de amigo

A que apenas o luar e solidão

Prestavam atenção.

 

Embalado na sua canção

Avança distraído.

Nem com o luar no seu esplendor,

Atentou num tronco caído

Que lhe passou uma rasteira

Que o deixou no chão sem sentidos,

Sem dar um suspiro de dor.

 

Apenas acorda com a aurora orvalhada.

Descobre a seu lado

Uma jovem ao sono abandonada,

Sob um manto de arbustos floridos

Sem dúvida feito à sua medida.

 

Agora,

No cimo da torre

Que fazia mais alto

O cume mais alto

Do monte mais alto

Da freguesia,

O jovem sentinela

E  jovem que encontrara,

Naquela solidão tão lá no alto

Sob o manto dos arbustos floridos,

Beijavam-se candidamente

  Zé Onofre

.

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