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Dia de Hoje

Dia de Hoje

17
Out22

Dia de hoje 70 - Canto tiste Vi

Zé Onofre

               70

 

Canto triste VI

 

022/10/17

 

Já não há poetas trovadores

Que cantem a nossa desgraça.

Não há quem semeie as dores

Sequer no vento ligeiro que passa.

 

Os cantores que há, não sabem

Ir de Terra em Terra animar a malta.

Que cantem traz um amigo também

Todos, vivos e idos, fazemos falta.

 

Os sanguessugas não temem nada,

Chupam-nos o sangue à luz do dia.

Os poetas vêem esvair-se a manada

E não denunciam a forte sangria.

 

Não há poetas que numa só canção

Dizerem a liberdade está por vir

Virá com pão, habitação e educação,

Que o povo seja dono do que produzir.

04
Nov21

Dia de hoje 12

Zé Onofre

                12

 

2021/11/03

 

Quando frequentei o quarto ano do liceu

O mesmo professor dava história e português.

Por que eu era Bom a história, coisa rara,

Tinha o mestre por mim certa consideração

E por isso a português o mínimo era o dez.

 

Confiado nesta linha de acontecimentos

E como a história era o meu encanto,

Estudava- a como quem vive uma aventura,

O português esperava preso a um canto.

Exceto o que neste tinha interesse a leitura.

 

Havia também a ferocíssima gramática,

Mas aqui o professor da quarta classe,

Que não era de levar as coisas com graças,

Se não cantava afinado o – a, ante, após até…

A “santa Luzia”, dos cinco olhos, fazia desgraças.

 

Na escrita, a coisa não era boa nem má,

Era uma jogar na lotaria uns dias não outros sim 

Fazia a redação com pouca, ou muita dificuldade,

Que admiração, era feita sem prazer algum.

O importante era que tivesse começo, meio e fim.

 

Tinha sempre a nota dez, pelo menos, garantida

Deixava estar como estava. Asneira grande seria

Se tentasse mudar o que bem estava e ter negativa.

Assim, do modo que a coisa bem seguia,

Tinha a passagem de fim de ano garantida.

 

Um dia aconteceu a desgraça quase total.

O Mestre com certeza acordou de juízo torto.

Tema – “Regresso a casa após longa ausência”.

Era tema para quem nunca fora além do Porto,

Que saíra num dia de manhã e voltara no outro?

 

Paciência estava no barco era para fazer.

Se a não fizesse nem a História garantia a nota dez.

Então para a viagem parecer longa e durar

Pus a máquina, suada, fumegante e ofegante

A parar não poucas vezes em cada rampa que fazia.

 

A viagem que nem o diabo faria tão acidentada,

Descabida, inverosímil inventada até à medula,

Demorou bem dez horas que não foram coisa breve.

O professor furioso  - então a máquina era uma mula?

Nesse dia a bendita nota dez resolveu fazer greve.

 

Alguns anos mais tarde, mas muito mais tarde,

Veio-me este acontecimento à memória.

Pendurado numa montra estava um quadro

Que pelo seu aspeto tinha cem anos de história.

Se, então, eu te conhecesse a nota dez estava na mão!

Zé Onofre

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