Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Dia de Hoje

Dia de Hoje

07
Jan22

Dia de hoje 23

Zé Onofre

              23

 

022/01/07

 

Ontem segui os meus passos.

Deixei-me guiar

Por caminhos dos meus olhares.

Parei frente à janela

Da “moleirinha”,

Do “ai há quantos anos…”,

Da “velha, da cabaça e do lobo”,

Das noites escuras estreladas,

Dos campos verdes a bordejar de água,

Dos milheirais amarelecendo,

Do fio de água

Feito lago grande

Presa num muro de pedra feito barragem.

 

Os meus olhares,

Que foram atrás dos meus passos,

Ainda tentam ver

Nos recantos do passado

Os meus amigos da escola e da catequese.

 

Meus companheiros,

Do alvorecer da vida,

A serpentear por entre os pés de milho,

A mergulharmos nus,

Ou em cuecas,

Naquele eterno lago,

Que o fio ténue de água

Descendo do alto da encosta

Vem alimentar.

 

Num outro quadro do passado

Vislumbro-me aninhado ou dobrado

Com os meus amigos de brincadeiras  

Nas bordas daqueles campos  

Que rodeavam aquele fio de água –

Que regará campos,

Moverá moinhos.

Rodas de fabriquetas,

Antes de se atirar ao mar

Depois de acompanhar rabelos –

A apanhar uns frutinhos vermelhos

Perfumados de aroma silvestre,

Morangos tão saborosos,

Mil vezes mais saborosos

Do que os enormes e vistosos,

Nascidos no mimoso cativeiro das estufas.

  

O nevoeiro do passado levanta-se.

São agora os meus olhos tristes

Que escorrem água salgada

Para o lago-memória

Que trago em mim.

 

Meus companheiros

De escola e catequese,

Meus amigos recolectores de frutos silvestres,

Mataram aquele fiozinho de água,

Onde no verão refrescávamos os corpus nus,

Apenas cobertos pelos milheirais.

As pequenas encostas,

Onde cresciam livres,

Saborosos e perfumados morangos.

Aquele fiozinho de água

Que levava misturado  os nossos risos,

Através de campos,

Moinhos,

Fabriquetas,

A acompanhar rabelos até se dissolver no mar.

  

Meus companheiros

De escola e catequese

Mataram aquele regatinho

Onde ontem sonhávamos aventuras.

Hoje, aquele leito que foi de água corrente,

É uma parada linha negra,

Por onde passam correndo

Pessoas, prisioneiras de máquinas,

Com destino marcado

Sem tempo para sonhar.

   Zé Onofre

 

12
Nov21

Dia de hoje 13

Zé Onofre

 13

 

 2021/11/12

 

Era sempre no mês de Setembro,

Ou talvez em Outubro,

No Outono era de certeza 

E disso não abdico.

 

O sol do Verão amarelecera os campos.

Nas terras mais fundeiras

O verde, mais ou menos, límpido

Resistia ainda ao calor.

 

As espigas haviam emigrado para a eira,

Onde, entre alegria,

Modas acompanhadas por rabecas,

Braguesas e cavaquinhos,

Seriam desfolhadas.

 

De vez em quando – Milho-Rei-

Seguidos de abraços e risinhos

Murmúrios com todas as intenções

Rodavam de boca em boca.

 

Após a fuga do milho para a festa,

Estendido, na cama verde, ficou

Um fruto enorme e rastejante,

Um sol irradiando fogo.

 

Miúdos, traquinas e divertidos,

Sorrateiros levavam o sol brilhante,

Para a oficina dos medos.

Onde moldavam uma cadavérica cabeça.

 

Olhos raiados de vermelho,

Dentes de cebola sangrando,

Mais tarde iria para a casa do terror,

A mina onde a fonte bebia água fresca.

 

Nas desfolhadas quase a acabar,

Dançavam copos com garrafões,

Corpos com corpos em fogo,  

Ficava a cabeça a rodopiar.

 

Os pequenos escapavam-se de fininho,

Lestos iam à casa dos terrores,

E dentro da cabeça enorme acendiam

Uma vela que ensanguentava tudo.

 

Tudo pronto. Bastava esperar

Que os sequiosos troca-pernas

Fossem refrescar com água corrente

As gargantas queimadas pelo carrascão.

 

O momento épico, ansiosamente

Esperado pela criançada,  

Vinha atrás, tropeçando nas pernas,

Em esses perigosos chegava à bica.

 

De olhos arregalados,

A fugir às arrecuas da água,

Gritava com puro pavor

Que o diabo estava no fundo da mina.

 

Com o realismo, que a toldada

Cabeça pelo tinto verde

Permitia, ti-ti-nha o os o-o-lhos ver-ver-me-lhos   

Dos seus den-den-tes es-co-corrri-rri-a san-san-gue.   

 

Assim se encerrava o Verão

Com um diabrete aboborado

Que o sol amadurecera

E mão  traquina  terminara.

  Zé Onofre

19
Set21

Dia de Hoje 2

Zé Onofre

             deonde  2

 

2021/09/19

 

Havia.

Lá na minha aldeia,

Perdida entre montes,

Havia

Uma corrente de água.

 

Havia.

Lá, do outro lado da estrada,

Onde ficava a minha casa,

Havia

Uma corrente de água.

 

Havia.

Lá, entre dois campos verdes,

Em frente à minha janela

Havia

Uma corrente de água.

 

A corrente de água

Que havia

No meio dos campos verdes

Em frente da minha janela,

Do outro lado da estrada,

Onde ficava a minha casa,

Na minha aldeia,

Não sabia de onde vinha.

 

A corrente de água

Que havia

No meio dos campos verdes

Em frente da minha janela,

Do outro lado da estrada,

Onde ficava a minha casa,

Na minha aldeia,

Não sabia para onde corria.

 

Apenas sabia

Que naquela corrente de água

Que havia

No meio dos campos verdes

Em frente da minha janela,

Do outro lado da estrada,

Onde ficava a minha casa,

Na minha aldeia,

Que vinha não sei de onde,

Que ia não sei para onde,

Vivia as minhas aventuras marinheiras.

 

Hoje

Penso que sei

Que aquela corrente de água

Que havia,

No meio dos campos verdes,

Em frente da minha janela,

Do outro lado da estrada,

Onde ficava a minha casa,

Na minha aldeia,

Que vinha não sei de onde,

Que ia não sei para onde,

Levava-me sem saber

Para além do mar.

Zé Onofre

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub