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Dia de Hoje

Dia de Hoje

16
Dez21

Dia de hoje 19

Zé Onofre

              19

 

021/12/16

 

                    I

 

Era uma vez uma menina.

Era uma vez uma mesa.

Era uma vez um frasco de cola.

Era uma vez uma parede.

 

                    II

 

Era uma vez uma menina …

Em casa, sozinha,

Sem nada para fazer.

Já tinha olhado

A paisagem além da janela.

Já tinha pegado num livro

Leu duas páginas e cansou-se.

Já tinha pegado em lápis,

Em tintas e pincéis.

Nem a pintura e o desenho

Lhe interessaram.

 

                    III

 

Era uma vez uma mesa.

Desanimada sentou-se à mesa.

Passou os olhos pelo quarto.

Nem a cama a seduzia.

A um canto um cesto de papéis

Esperavam a ordem de despejo.

Mais além, fora de lugar,

Um rolo de papel de cenário,

Esperava ordem de se arrumar.

Levantou-se pegou no rolo,

Inerte largou-o em cima da mesa.

 

                     IV

 

Era uma vez um frasco de cola.

A menina olhou-o por um momento.

De seguida mirou o rolo de papel.

Num canto da mesa uma tesoura.

No canto o cesto dos papéis.

Os seus olhos brilharam.

Desenrolou o papel.

Foi buscar o cesto dos papéis.

Pegou num dos papéis.

Uma tesourada, uma pincelada de cola.

Deitou-os, cada um no seu canto, do papel.    

 

                     V

 

Era uma vez uma parede.

Na mesa do quarto ia grande azáfama.

Uma menina tesourava e colava,

Na mesa o papel de cenário

Estava quase vestido de papéis.

Mais papel, menos papel e pronto.

Ainda havia papel nas mãos pegajosas.

Colou papel sobre papel, feliz com a sua obra.

O chão ladrilhado de papelinhos, que importava?

Faltava um último retoque, arrumar a sua arte.

Com todas os requintes pendurou-a na parede.

Zé Onofre 

28
Nov21

Dia de Hoje 14

Zé Onofre

14

 

021/11/28

 

Naquele dia,

Como em muitos outros dias

A ele iguais

As coisas aconteceram

Como deveriam acontecer.

 

O sol envergonhado,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Levantou-se fraco,

Após as longas viagens do Verão.

Custou-lhe, com os seus cansados braços,

Romper o manto cinzento

Tecido a pérolas líquidas.

 

Quando finalmente,

O sol mostrou o seu rosto descorado,

Como acontecia em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Já o dia ia longe na sua rotina

De todos os dias.

 

Desde a madrugada que os padeiros,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Trabalham arduamente.

Foram os primeiros a cumprimentar

O dia que custosamente amanhecia.

 

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Preparam o dejejum para os que cedo

Foram para o trabalho

De todos os dias.

 

Das padarias saiu

Para todos os lares o pão de cada dia.

De portas abertas toda a noite,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Os noctívagos folgazões da aldeia

Acolheram-se ao calor dos fornos

E dos pães quentes com manteiga.

 

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Também os tascos

Precisaram de ser servidos de pães

Antes que o movimento

Começasse a entrar pelas portas.

 

Eram os clientes de todos os dias

Que, como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Tiritantes e esfregando as mãos

Passariam pela porta entreaberta.

Camioneiros, viajantes de todas as estradas,

Operários da construção civil,

E outros que antes do trabalho duro

Metem uma bucha à boca.

 

Enquanto comentavam o tempo,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Dizem que aquele dia cinzento

É mais frio que o do ano passado.

 

Naquele dia,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Pararam desconhecidos,

Vindos de algures

E se dirigiam a nenhures

Pediram, foram servidos,

Calados comeramm

E calados se foram como chegaram.

 

Na escola em frente

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Os alunos chegaram

Rostos corados pelo esfregar das mãos

Que espantaram o frio.

As suas narinas eram chaminés

De onde fuminho pesado e húmido

Ficava suspenso frente aos seus olhos.

 

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Também naquele dia

O professor abriu-lhes a porta severa,

Seguindo-os para a sala.

De pé realizaram os preliminares da praxe.

Então, começaram verdadeiramente a aula.

  

Naquele dia a rotina fora a mesma,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia.

Períodos silenciosos,

Cortados pela fala zangada do professor,

Ou pelo som seco da “milagrosa”,

Nas frágeis mãozinhas das crianças,

Acompanhadas da oração do costume

- Se não te entra pela cabeça

Entra-te pela pele.

 

Mães de família,

Criadas das senhoras Donas,

Também naquele dia,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Fizeram as compras do dia.

 

Entretanto,

A criançada libertada da escola/gaiola

Quais pintassilgos selvagens

Apanhados traiçoeiramente em “alçapões”,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Jogaram à macaca,

Saltaram à macaca,

Deram voltas à igreja

Com promessas de pontapés na bola-de-trapos,

Mas as canelas é que se queixaram.

 

A noite anunciou-se.

A miudagem recolheu-se a casa

Ao mesmo tempo que os pais

Que, derreados, chegaram do trabalho.

 

Naquele dia,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Alguns homens desocupados

Jogaram à bisca lambida,

Enquanto bebericavam por uma caneca de grés

Uns golitos do verde tinto carrascão.

 

Ora, já entrada a noite daquele dia,

Que não seria como todos os outros dias

Que até aí tinham sido iguais àquele dia,

Um casal jovem entrou,

Cumprimentou baixinho os que estavam

E ainda com voz ténue perguntou ao taberneiro

- Onde podemos passar a noite?

 

Entretanto os batoteiros pararam de as bater,

Arrebitaram as orelhas.

Um, de ouvido mais apurado,

Levantou um pouco a voz,

Para não perturbar o silêncio,

Reforçado pelas sombras fantasmagóricas

Projectadas nas paredes pela fraca lâmpada,

Disse

- Só se for na padaria. Está aberta toda a noite,

Está quente do forno e há sempre sacos de farinha

Que servirão de cama e cobertor.

 

Dito isto levantou-se e acompanhou o casal

Ao albergue improvisado.

O Padeiro, acomodou-os o melhor que pôde

Num cantinho aconchegado.

O casal fatigado enfim teve descanso.

Foi na hora dos noctívagos folgazões chegarem

Que a jovem começou com dores.

Os amigos não foram servidos com pão e manteiga,

Eles é que serviram de parteiros,

Ao bebé que naquele momento nascia.

  Zé Onofre

14
Out21

Dia de Hoje 9

Zé Onofre

9

2021/10/14

 

Era uma vez uma casa.

 

Era uma vez um quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez uma cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um jovem

Que dormia na cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um menino

Que dormia com o jovem

Que dormia na cama

Que dormia no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um jovem

Que contava historinhas

Ao menino que com ele dormia

Na cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um menino

Que dormia sonhando

Com as historinhas

Que o jovem irmão

Lhe contava na cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um menino

Que se levantava da cama

Que saía em sonhos

Pela janela

Daquele quarto

Que ficava na casa.

 

 

 

 

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