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Dia de Hoje

Dia de Hoje

07
Mai22

Dia de hoje 45

Zé Onofre

                 45

 

022/05/07

 

O meu primeiro dia

De preto e amarelo vestida,

Foi o dia mais especial da minha vida.

 

Antes de sair tive mil cuidados.

Alisei o meu fato aveludado

Muito pormenorizadamente

Com a penugem das minhas patas.

 

A seguir passeei a minha beleza

Pelo palácio.

As da minha idade olhavam-me,

Escondendo atrás do seu desdém,

A inveja do meu aspecto

Tão limpo, elegante e deslumbrante.

 

As mais velhas olhavam-me

Com um ar nostálgico

Rememorando certamente o seu dia primeiro.

 

Coloquei-me no varandim do palácio.

Iniciei o meu voo com as pernas a tremer,

O que não me impediu de fazer,

Antes de me aventurar pelo azul,

Um voo rasante ao tapete verde.

As novas já se riam do meu fiasco,

Enquanto as mais práticas bateram as patas

Quando me viram elevar,

Com graciosidade, por sobre as flores,

As árvores quase a florir,

Até o jardim mais próximo.

 

Lá havia pessoas sentadas em bancos.

Umas dormitavam cabeceando o jornal.

Outros enfronhados na leitura,

Não estavam ali.

Alguns olhavam o céu sonhador,

Enquanto os enamorados se beijavam,

Também eles longe dali.

 

De uma estátua de pedra,

Retrato de um menino a mijar,

Caía água que enchia um lago.

Neste, meninos a sério, em cuecas,

Refrescavam-se na água esverdeada,

Por entre as algas que flutuavam

Ondulantes pelosseus mergulhos.  

Poisei no menino de pedra, dessedentei-me.

Levantei novo voo,

Dei uma volta àquele jardim encantado,

Parti para nova viagem pelo desconhecido.

Em cada canto havia algo de misterioso,

Para a minha inexperiente vida,

Onde me perdia extasiada.

 

Quando regressei ao meu palácio,

Parei no varandim

Olhando para além do relvado,

Já com saudades daquela bela viagem.

Quando me preparava para entrar,

Todas apreciavam as minhas pernas

Com ar de espanto.

Será que são assim tão belas,

Interroguei-me intrigada.

 

As minhas pernas estavam tão limpas

Como no momento da partida,

O que era um escândalo.

Deveria ter regressado

Com elas gordas de pólen,

E pesada do estômago carregado de néctar.

Mostrei-me falsamente envergonhada,

Porém com a cabeça repleta de memórias

Que me acompanham até hoje.

Zé Onofre

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