Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Dia de Hoje

Dia de Hoje

15
Out22

Dia de hoje 68 - Canto triste IV

Zé Onofre

              68

 

    Canto triste IV

 

022/10/14

 

Como nos deixamos derrubar?

Vínhamos tão bem seguros

Da luta, lá longe começada,

Tãolonge para agora acabar,

Sem serem atingidos os futuros,

Que nossos avós iniciaram do nada.

 

Olhemos, para ver, à nossa volta 

Para ver se entendemos em que curva

Da longa caminhada nos perdemos.

Como é que a gente de esperança à solta

Como bandeira, de remente fica turva

Desistindo de ter o futuro que merecemos.

 

Será que acreditamos nos agourentos

Que diziam que estávamos enganados,

Que uma sociedade onde a gente é igual,

Só cabe na cabeça duns loucos violentos?

Porém, havia mais loucos entusiasmados

Com uma sociedade sem a ditadura do capital.

 

O capital, como qualquer outo poder,

Não vai desistir. Muda de estratégia.

Muda o rosto, e cria a social-democracia.

Consegue, com essa farda, não perder

O comando. Finge que recua, demagogia,

E com boa publicidade é só esperar para ver.

 

Como é que tantos se deixaram enganar?

Não sabem que ninguém dá nada de graça?

Assim iludidos tornaram-se bons aliados

De quem vive apenas para os explorar.

Nos gabinetes há quem idealiza e traça

O modo de vencer os mais desconfiados.

 

Como nos deixamos derrubar?

Vinha de longe, de tão longe a luta,

Conquistando tanto, para perder tudo,

Que custou suor e sangue a conquistar.

Talvez tenhamos perdido o dom da escuta

E o nosso discurso tivesse ficado mudo. 

 

E agora o que nos resta para fazer

Neste tempo tão difícil para lutar?

De longe, tão longe, aqui chegamos

Para arribar à praia e desfalecer?

Não meus irmãos, temos que continuar.

Se não, por que é que aqui estamos?

  Zé Onofre

13
Out22

Dia de hoje 67 - Canto triste III

Zé Onofre

                  67

 

Canto triste III

 

022/10/13

 

Dão-nos um lugar e ferramentas

E um horário para cumprir

Mais uma pessoa que aumenta

A lista da pobreza sempre a subir.

 

Dão-nos um nome sedutor

Para encobrir a realidade.

Chamam-nos colaborador

Porque têm medo da verdade.

 

Dão-nos nome de colaborador

Para não termos consciência

Da condição de trabalhador,

E nos quebrar a resistência.

 

Dão-nos um cheque a ver se cola,  

Se passa como honesto salário.

Dão-nos sorrindo aquela esmola

Fazendo de cada um, um otário.

 

Passam-nos a mão na cabeça

Com ar de carinho paternal,

Para que o operário se esqueça

De lutar contra o sistema atual.

 

Dão-nos tratamentos especiais   

Para fazerem crer que temos sorte.

Não querem que nos vejamos iguais

Porque unidos somos mais fortes.
        Zé Onofre

12
Out22

Dia de hoje 66 Canto Triste II

Zé Onofre

               66

 

Canto triste II

 

022/10/12

 

Amigo

Tão perdido no vento

Por esses caminhos do desalento.

Porque desperdiças o tempo

E não o somas ao de alguém.

 

Em cidades

Em vilas e aldeias

Porque passas sem olhar bem

Não saberás que há outros à tua beira

Que sofrem também.

 

Vê que

Vê que se ficas só

Não irás a qualquer parte.

Deixa que os sonhos dos outros

Sejam os teus sonhos também.

       Zé Onofrer

10
Out22

Dia de hoje 65 - Canto triste

Zé Onofre

               65

 

                Canto triste

 

022/10/10

 

Pergunto aos jovens cantores

Que me dizem sobre o meu país?

Só os ouço em cantigas de amores

Uns são tristes, um outro quase feliz.

 

Mas sentados à mesa do café

Ouvem-se sussurros de desilusão.

Mas estes sussurros, saiba-se lá porquê,

Não são tema nem para uma canção.

 

Parece que os dias tristes trazem

Um amargo de boca aos cantores.

Será que quem futuro não tem

Merece só canções de frívolos amores?

    Zé Onofre

04
Out22

Dia de hoje 64.A

Zé Onofre

                   64.A

 

022/10/04

Nos tempos em que usava calções

Porque era o certo para a minha idade,

Nas longas tardes dos antigos verões,

Descia até ao rio pleno de felicidade.

  

Era sempre a descer até ao fio de água,

Que por entre arvoredos corria, e saltava

Nos açudes cantando com mágoa

A sina da princesa que o tempo aprisionava.

 

E eu, pequeno sonhador de contos de encantar,

Sentado à sombra dos velhos salgueiros,

Ouvia a lenda, que a aragem contava ao passar,

 De uma bela princesa fazia belos cruzeiros

 

Num barquito ornado dum tapete doirado.   

Diz a lenda que um belo e pobre moleiro

Se havia perdida e loucamente apaixonado.

Aquele amor foi acolhido com ar prazenteiro.

 

A lenda, diz ainda, que a paixão pelo moleiro

Para sempre a prendeu àquele fio de água. 

Dizem que é o humilde e velho barqueiro,

Que passeando as crianças acalma a sua mágoa.

  Zé Onofre

30
Set22

Dia de hoje 64

Zé Onofre

64

Monólogo do Zé Maneta. 

(Zé Maneta, não. Bernardo José da silva, filho da Conceição maneta)

1 – Fora a caminho da porta

Deitei me’solhos ó rio

Só p’ra ber o teu brio

´’stabas a labar

Laba, laba, labadeira

‘stabas na brincadeira

‘stabas a namorar

 

2 – À porta

 

Ó ‘saurinha, ‘saurinha! Quer’uma’scoba p’ra labar o sobretudo! E sabom? Já se sabe e sabom!

Laba, laba, labadeira

‘stabas na brincadeira

‘stavas a namorar

Ó Méquinho qu’é‘gora qu’o Mário Silva, leb’à taça do ciclismo! É meu, meu filho! Qu’eu foi peixeiro na Ribeira, no Porto, e fiz lá um filho! Ai meu rico filho, qu’é campeom de ciclismo e Bib’ó “Porto”! Bamos gente, bamos,   qu’o meu filho já lá’stá   p’ra lebar’o prémio.

Ai num é?! É triato? Triato, o qu’é qu’é triato?!

 

2 – Do fundo para a frente

 

A Saia da Carolina

Tenh’um lagarto pintado

Sim Carolina ó i ó ai

Sim Carolina ó ai meu bem

Tem cuidad’ó Carolina

Qu’o lagarto bai-t’ó…

Ai bai, bai, … qu’eu menei, menei, menei todos no foxtrot nos cedros, na pixina,

Cala-te Zé!

Cala-te Zé? Num calo! Olha, olha p’r’ele, o menino Tóli, a dizer cala-te Zé. O menino Tóli tem medo qu’eu conte o qu’oubi em casa do sar’… Qu’era, era. Ai era, er’ó menino Tóli, …

A Saia da Carolina

Te’nh’um lagarto pintado

Sim carolina ó i ó ai

Sim Carolina ó ai meu bem

Tem cuidad´ó Carolina

Que o lagarto bai-t’ó …

 

 

Cala-te Zé!

Ai cala-te. Ó se Macedo debe-me 30 mil réis, faz três meses que num me paga. Num debe? Debe, debe! Pensa qu’é só rir do …

… Zé Maneta?! Zé Maneta, Nom! José Bernardo da Silva, filho da Conceição Maneta. Olha o s’ P’reira fum, fum, fum, pensa qu’é só rir do borracho. Querem rir, paguem, paguem!  Ai roubaro-m’a picareta, qu’era o meu ganha-binho, e agora bebo de quê?

 

3 – À frente ao centro, para a esquerda, para a direita, para o centro

 

Er’ó binho, meu Deus er’ó binho

Era a coisa qu’eu ma’sadorava

Só pro morte meu bem, só pro morte

Só pro mort’é qu’eu o binho, deixaba.

  Bobia, Bobia mais, mas’a canec’stá seca.

Ó se Serafim ma’suma canequinha, só uma, se Serafim.

Cala-te Zé!

Só uma, só uma canequinha!

Fum’um “Porto” e tenh’uma caneca?!

 Num queim’o’meu rico “Porto”! Oubiro, Queimar’o meu Porto? Eu não me bendo pr’uma caneca de binho!

Dá-m’uma copa da balança s’a bober dum gole?!

Já bai!

“glu …glu… glu…”

“Ffffffffffffffffffffffffffffffffffff”

4 – Para o fundo

 

Sopas de binho num embebedam

Se nunh’stá bento, nem chuva,

Minhas botas nunh’escorregam,

Que diach’é que m’empurra!

Hum, hum, hum , brrr, brrr

 

5 – Cai a meio

 

Ai, ai, ai! Menino Tóli, num bê quenh’está?

 

6 – Levanta-se e caminha para o fundo

 

Ó menina! Coser à noite com linha preta cham’ó dianho! Pr’isso caí na baleta. Menina, menina ….

 

7 – Para a frente

 

Milagre! Milagre!

Santosanjos e arcanjos,

Bind’em nossa companhia

Ajudai-no’sa louvar

A divin’eucar’stia

Cala-te Zé!

Foi milagre sar’Abade, eu’stava caídinho na cama, qu’até asovelhas, do s’Américo. me mijaro a cama, num foi menina Leninha, e num cunseguia levantar um dedo, e beu a Nossa Sr.ª da Graça e lebantou-me. Milagre, Milagre

Santosanjos e arcanjos,

bind’em nossa companhia

Ajudai-no’sa louvar

A divin’eucar’stia    

Bai-t’embora Zé!?

 

8 – Para trás

 

Prontos bou p’r’à beira do Biolino, xotado com’um com!

Biolininho, Biolininho,

Grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr

Tu rosnas, biolão, biolão

 

9 – À porta do fundo

Ó se Doutor tam’ém poss’ir ao tiatro ou fic’aqui co´o Biolino? Tam’ém bou? Ai qu’o se Doutor é meu amigo. E binho, posso lebar a canequinha do binho? Ai qu’o se doutor é o ma’or. Bamos, bamos’ó  triato, mas só o Zé leba a caneca. Oubi, sõedes cons p’ra ficar cá fora? Todos p’ra dentro, fora só’oz biolininho’ses  e oz’biolões. Todos p’ra dentro qu’o se Doutor bai fechar a porta. Oubiro o se Doutor, que deu-m’uma caneca de binho, é que manda! Os’es Doutores é que mando, mas’um doutor que me dá binho, manda mais! Bib’ó se Doutor! Bib’ó triato!

10 – Fecha a porta

    Zé Onofre

Notas 

Zé Maneta

 

 

  • Nome: “Zé Maneta, não! José Bernardo da Silva, filho da Conceição Maneta.”
  • Atividade: Rachador de tocos até que: “Roubaram-me a picareta é porque querem que não trabalhe.”
  • Atividade pedinte? Não! : “O senhor … deve-me tanto, há três meses que me não paga”.
  • Assistido pelos vizinhos, vivia num quarto, por cima de uma corte de ovelhas, emprestado a título vitalício.
  • Assistido pela Conferência de S. Vicente de Paula que lhe limpava o quarto. Ralhado por urinar na cama: “Ó menina Leninha, juro que não fui eu, foram as ovelhas do Sr. Américo.”
  • Guardador dos bons Costumes
    1. Vizinho de uma piscina onde a juventude “bem” da terra passava as tardes de Verão: “ Eu menei, menei! Menei! estavam no fox-trot!”
    2. Frequentador da casa do pároco ouve vozes que não reconhece como do padre: “Era o menino Tóli que estava com a Fatinha [irmã do padre]
  • Acariciador de cães: “Violininho, Violininho [o cão rosna e ameaça morder] Violão, Violão”
  • Fumador, ofereciam-lhe tabaco de filtro, não aceitava porque podia ser Porto: “Eu não queimo o meu porto!”
  • Doente, ficou curado num dia da festa da Senhora da Graça: “Vi nossa Senhora! Ela fez-me um milagre!”
  • Conselheiro: “Ó menina está a coser à noite com linha preta? Olhe que chama o diabo!”
  • Frequentador da Igreja, acompanhava os cânticos, em voz alta, afinados, embora fora do tom da restante comunidade: -“Cala-te Zé!” – “Já não se pode cantar, vou-me embora!”
  • Bêbado Incorrigível: “Aposto que bebo uma copa [copo grande de uma balança de braços] de um só fôlego! Glu glu glu …. Vuuuuuuuuuuuuuuuuu!”
  • Circuito do Vale do Tâmega em Ciclismo, para populares. Adepto do Porto, a prova é ganha por Mário Silva, ciclista do Porto. Convencem-no que este é seu filho: “Ai, o meu rico filho é campeão!”
  • Pobre, mas limpo: “Ó dona Isaurinha preciso de sabão e escova para lavar o sobretudo!”, que lavava a cantar.
  • Respeitador: “Ó sr. Pereira Fun, fun, fun” -  [quando se dirigia ao sr. Pereira que não gostava que lhe chamassem Funtão”.
21
Set22

Dia de hoje 62

Zé Onofre

              62

 

022/09/20

 

Há uma figura

No parapeito de uma janela.

Deixaram-na ali,

Numa forma de alguém

Com ossos, carne e pele.

 

Parece olhar.

Parece ouvir.  

Parece ser, contudo não é.

É qualquer coisa abandonada

Sem espaço e sem tempo.

 

De repente, um sopro

Insuflou movimento autónomo

Àquela figura.

Naquele momento aconteceu algo espantoso.

Para ela nasceu o espaço, nasceu o tempo.

  Zé Onofre

20
Set22

Comentário 297

Zé Onofre

                    297 

 

022/09/20

 

Sobre Elementar, Maria Soares, 11.09.22, silencios.blogs.sapo.pt/

 

 

Não sei se vi,

Se imaginei,

Ou se foi mais um sonho que tive.

 

Era a imagem de uma fraga

Que a natureza esculpiu com rosto humano.

O rosto de uma deusa,

A mãe Gaia de todos nós.

 

Essa imagem

Vista, imaginada ou sonhada,

Mostrou-me com clareza,

Sem dúvida nenhuma

Que entre homem e natureza

Não há diferença alguma.

 

Do ponto mais distante do Universo,

Que se situa

Para lá de onde a imaginação alcança,

Há uma teia de fios invisíveis

Que une tudo e todos como uma trança.

 

Naquela bacia de águas serenas,

Uma pequena amostra do Universo,

Ao flutuarmos naquela água original,

Percebemos a nossa frágil finitude.

Flutuando naquela água virginal,

Vemos que não há querelas, nem diferenças,

Que todos, mortos e vivos, somos um em plenitude.

Zé Onofre

15
Set22

Comentário 296

Zé Onofre

                   296

022/09/15

Sobre Vida, viva a vida, Taddeo Kallil Nauar, chaosmythosalegorias.blogs.sapo.pt

Vivo a vida vivendo.

Traço com alegrias e tristezas,

Com amor e amargura

O caminho que trilho.

Apenas vivo fazendo da vida

Coisa única e intransmissível.

Às vezes tenho a sorte de ir a par de outros

Que fazem a sua rota com destino

Ao mesmo Infinito.

  Zé Onofre

14
Set22

Comentário 295

Zé Onofre

                   295 

 

022/09/13

 

Sobre, O Signo de Deus, Sandra, 03.09.22, cronicassilabasasolta.blogs.sapo.pt

 

 

Se a lua,

As estrelas,

A noite me contassem todos os segredos

Não teria enganos,

Desilusões,

Ou medos do amanhã.

 

Talvez

A lua,

As estrelas,

A noite me contem todos os segredos.

Talvez seja incapacidade minha

Não saber ouvir as palavras

Que o universo sussurra na aragem.

 

Talvez

A lua,

As estrelas,

A noite me contem todos os segredos.

Talvez seja por incapacidade minha,

Não os recolher um a um conforme, 

Caem à minha frente como folhas de outono.

 

Talvez

A lua,

As estrelas,

A noite me contem todos os segredos.

Talvez seja por incapacidade minha,

Que lhes fecho os olhos

Como se fossem raios de uma tempestade.

 

Talvez

A lua,

As estrelas,

A noite me contem todos os segredos.

Talvez seja por medo meu

Não os ouvir,

Não os apanhar,

Não os ver.

    Zé Onofre

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2022
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2021
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub