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Dia de Hoje

Dia de Hoje

27
Fev22

Dia de hoje 29

Zé Onofre

               29

 

022/02/27

 

Quero escrever.

 

Em palavras simples expressar

O desespero que me envenena.

Em palavras simples expressar

A desilusão que me acabrunha.

Em palavras simples expressar

O negrume que me consome.

Em palavras simples expressar

O caos em que mergulhei.

 

Não encontro palavras

Para falar de dores

Que não se manifestam

Em sintomas.
Não encontro palavras

Para descrever

Uma dor tão funda

Que me afunda

Que lentamente me corrói.

Há sombras tão negras

Que apenas me deixam
Chorar.

 

Homo insanus, Homo insanus,

Que fizeste ao Homo Sapiens?

Para que mundo escuro o remeteste

Que há tanto tempo desapareceu?

Será que algum dia

O voltaremos a ver,

Ou será que para sempre o desterraste?  

20
Fev22

dia de hoje 28

Zé Onofre

              28

 

022/02/19

 

Numa aldeia, daquelas do era uma vez,

Quando o imprevisto acontecia dizia-se

– A culpa foi do chão em xadrez.

 

Naquela aldeia entre montados,

Havia uma rapariga e um rapaz

Que desde a primária eram namorados.

 

A seguir, foi o tempo do liceu.

Separados, a coeducação era tabu,

O enleio entre os dois permaneceu.

Juntos foram para a mesma Universidade.

Uma fonte chora as lágrimas de Pedro e Inês

E na mesma cidade há o Penedo da Saudade.

 

No mesmo ano naturalmente

Acabaram, como esperado, o curso.

Celebraram-no entre famílias evidentemente.

 

Naquela aldeia, em tudo às outras igual,

Esperava-se, com curiosidade genuína,

Que aqueles dois dessem o nó final.

 

Como o tempo passava e nada acontecia,

Começaram as apostas cada vez mais altas

Ganhava quem acertasse no esperado dia.

 

Um dia, sempre na mesa do canto

Do único café, divergiram os olhares.

Quando se fixaram tinham cara de espanto.

 

Após tantos anos viram pela primeira vez

Que o chão do café, onde iam desde sempre,
Era feito de azulejos assentados em xadrez.

 

No adro da igreja, os vizinhos sentados,

Aspiravam o doce aroma das tílias,

Factos, de todos os dias, para eles tão inusitados.

 

Aperceberam-se, então, naquele momento

Que não conheciam o mundo. E a eles

Conhecer-se-iam? Não haveria casamento.

 

Um coro único varreu a aldeia de lés a lés.

Famílias, amigos, vizinhos, comadres diziam

– “A culpa foi do chão em xadrez.” 

Zé Onofre

18
Fev22

Dia de hoje 27

Zé Onofre

               27

 

022/02/16

 

 

Hoje subi à varanda do meu quarto.

Lá, do alto da casa

Largo a grade onde me debruçara,

Elevo os olhos ao céu cinzento,

Avaro da sua água

Que o sequioso Tâmega

Bem agradeceria.

 

Hoje subi à varanda do meu quarto.

Lá, do alto da casa,

Elevo os olhos ao cinzento.

Entre este cinzento

E o verde dos campos

(Onde ainda ontem bois mansos

Puxavam velhos arados

Com um homem cansado à rabeta

Lavravam a terra)

Avisto asas indefinidas

Que se confundem com o manto cinzento

Bordado de azul fugidio.

 

Hoje subi à varanda do meu quarto.

Lá do alto da casa,

De novo debruçado nas grades,

Vejo plantadas, no verde tapete dos campos,

Algumas casas.

Umas  florescidas do telha-vivo,

Ao telha-velho enverrugado de verde.

 

Hoje subi à varanda do meu quarto.

Lá, do alto da casa,

Debruçado nas grades

Entre os vários tons das flores-telha,

Uma destoa espreitando

Por entre as folhas sempre verdes

De uma árvore centenária.

 

Hoje subi à varanda do meu quarto.

Lá, do alto da casa,

Debruçado nas grades

Os ouvidos prendem-se

Às histórias do meu quase centenário primo.

Contava das longas noites de Inverno.

Então os seus olhos azuis-límpidos

Aguavam por de trás das lentes

Enquanto sorriam  também

Com a visão do pai Quim e da mãe Rita

Sentados à lareira, mais a tia Adelaide,

E mais tarde o ti' Zé Alfaiate.

Entrava mudo, saía calado

Sempre com a beata colada no canto da boca.

Neste ponto, quando os olhos

Ameaçavam desaguar rosto abaixo,

Recolhia a água às suas fontes

E os olhos estrelhejavam ao falar de um miúdo

Que afoitamente subia aquela árvore,

Já então mais alta que a casa.

 

Lá em cima, no alto da casa,

Debruçado nas grades

Da varanda do meu quarto onde subi

Penso ter visto, na alegria sorridente

Do miúdo no alto da árvore,

Uma amostra da Felicidade.

    Zé Onofre

13
Fev22

Dia de hoje 26

Zé Onofre
26




022/02/13




Aquele homem madrugou.

‘inda o sol não espreitava na varanda das colinas,

Já ele marcava a terra arada com as suas pegadas.

O braço direito,
Agitava-se com a aragem húmida do amanhecer.

Dos seus dedos soltava-se uma poalha,

Uma ligeira sombra contra a luz que se aproximava.




Bem cedo se ergueu aquele homem.

Quem de longe o vê,

Misterioso,

Caminhar na terra lavrada,

A esbracejar contra o infinito,

Ao lusco-fusco do amanhecer

Apenas pode imaginar   

Que faz ali o homem antes do sol raiar

Por entre o gradeamento colorido,

Lá do alto das varandas das colinas.

Lança sementes à terra?

Lança sonhos ao infinito?

Lança ilusões ao sol, finalmente, nascente?

Seja que semente for,

Que a seara multiplique os seus desejos,

Que o sol tardio veio espreitar.

Zé Onofre

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