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Dia de Hoje

Dia de Hoje

28
Nov21

Dia de Hoje 14

Zé Onofre

14

 

021/11/28

 

Naquele dia,

Como em muitos outros dias

A ele iguais

As coisas aconteceram

Como deveriam acontecer.

 

O sol envergonhado,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Levantou-se fraco,

Após as longas viagens do Verão.

Custou-lhe, com os seus cansados braços,

Romper o manto cinzento

Tecido a pérolas líquidas.

 

Quando finalmente,

O sol mostrou o seu rosto descorado,

Como acontecia em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Já o dia ia longe na sua rotina

De todos os dias.

 

Desde a madrugada que os padeiros,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Trabalham arduamente.

Foram os primeiros a cumprimentar

O dia que custosamente amanhecia.

 

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Preparam o dejejum para os que cedo

Foram para o trabalho

De todos os dias.

 

Das padarias saiu

Para todos os lares o pão de cada dia.

De portas abertas toda a noite,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Os noctívagos folgazões da aldeia

Acolheram-se ao calor dos fornos

E dos pães quentes com manteiga.

 

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Também os tascos

Precisaram de ser servidos de pães

Antes que o movimento

Começasse a entrar pelas portas.

 

Eram os clientes de todos os dias

Que, como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Tiritantes e esfregando as mãos

Passariam pela porta entreaberta.

Camioneiros, viajantes de todas as estradas,

Operários da construção civil,

E outros que antes do trabalho duro

Metem uma bucha à boca.

 

Enquanto comentavam o tempo,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Dizem que aquele dia cinzento

É mais frio que o do ano passado.

 

Naquele dia,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Pararam desconhecidos,

Vindos de algures

E se dirigiam a nenhures

Pediram, foram servidos,

Calados comeramm

E calados se foram como chegaram.

 

Na escola em frente

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Os alunos chegaram

Rostos corados pelo esfregar das mãos

Que espantaram o frio.

As suas narinas eram chaminés

De onde fuminho pesado e húmido

Ficava suspenso frente aos seus olhos.

 

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Também naquele dia

O professor abriu-lhes a porta severa,

Seguindo-os para a sala.

De pé realizaram os preliminares da praxe.

Então, começaram verdadeiramente a aula.

  

Naquele dia a rotina fora a mesma,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia.

Períodos silenciosos,

Cortados pela fala zangada do professor,

Ou pelo som seco da “milagrosa”,

Nas frágeis mãozinhas das crianças,

Acompanhadas da oração do costume

- Se não te entra pela cabeça

Entra-te pela pele.

 

Mães de família,

Criadas das senhoras Donas,

Também naquele dia,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Fizeram as compras do dia.

 

Entretanto,

A criançada libertada da escola/gaiola

Quais pintassilgos selvagens

Apanhados traiçoeiramente em “alçapões”,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Jogaram à macaca,

Saltaram à macaca,

Deram voltas à igreja

Com promessas de pontapés na bola-de-trapos,

Mas as canelas é que se queixaram.

 

A noite anunciou-se.

A miudagem recolheu-se a casa

Ao mesmo tempo que os pais

Que, derreados, chegaram do trabalho.

 

Naquele dia,

Como em todos os outros dias

Iguais àquele dia,

Alguns homens desocupados

Jogaram à bisca lambida,

Enquanto bebericavam por uma caneca de grés

Uns golitos do verde tinto carrascão.

 

Ora, já entrada a noite daquele dia,

Que não seria como todos os outros dias

Que até aí tinham sido iguais àquele dia,

Um casal jovem entrou,

Cumprimentou baixinho os que estavam

E ainda com voz ténue perguntou ao taberneiro

- Onde podemos passar a noite?

 

Entretanto os batoteiros pararam de as bater,

Arrebitaram as orelhas.

Um, de ouvido mais apurado,

Levantou um pouco a voz,

Para não perturbar o silêncio,

Reforçado pelas sombras fantasmagóricas

Projectadas nas paredes pela fraca lâmpada,

Disse

- Só se for na padaria. Está aberta toda a noite,

Está quente do forno e há sempre sacos de farinha

Que servirão de cama e cobertor.

 

Dito isto levantou-se e acompanhou o casal

Ao albergue improvisado.

O Padeiro, acomodou-os o melhor que pôde

Num cantinho aconchegado.

O casal fatigado enfim teve descanso.

Foi na hora dos noctívagos folgazões chegarem

Que a jovem começou com dores.

Os amigos não foram servidos com pão e manteiga,

Eles é que serviram de parteiros,

Ao bebé que naquele momento nascia.

  Zé Onofre

12
Nov21

Dia de hoje 13

Zé Onofre

 13

 

 2021/11/12

 

Era sempre no mês de Setembro,

Ou talvez em Outubro,

No Outono era de certeza 

E disso não abdico.

 

O sol do Verão amarelecera os campos.

Nas terras mais fundeiras

O verde, mais ou menos, límpido

Resistia ainda ao calor.

 

As espigas haviam emigrado para a eira,

Onde, entre alegria,

Modas acompanhadas por rabecas,

Braguesas e cavaquinhos,

Seriam desfolhadas.

 

De vez em quando – Milho-Rei-

Seguidos de abraços e risinhos

Murmúrios com todas as intenções

Rodavam de boca em boca.

 

Após a fuga do milho para a festa,

Estendido, na cama verde, ficou

Um fruto enorme e rastejante,

Um sol irradiando fogo.

 

Miúdos, traquinas e divertidos,

Sorrateiros levavam o sol brilhante,

Para a oficina dos medos.

Onde moldavam uma cadavérica cabeça.

 

Olhos raiados de vermelho,

Dentes de cebola sangrando,

Mais tarde iria para a casa do terror,

A mina onde a fonte bebia água fresca.

 

Nas desfolhadas quase a acabar,

Dançavam copos com garrafões,

Corpos com corpos em fogo,  

Ficava a cabeça a rodopiar.

 

Os pequenos escapavam-se de fininho,

Lestos iam à casa dos terrores,

E dentro da cabeça enorme acendiam

Uma vela que ensanguentava tudo.

 

Tudo pronto. Bastava esperar

Que os sequiosos troca-pernas

Fossem refrescar com água corrente

As gargantas queimadas pelo carrascão.

 

O momento épico, ansiosamente

Esperado pela criançada,  

Vinha atrás, tropeçando nas pernas,

Em esses perigosos chegava à bica.

 

De olhos arregalados,

A fugir às arrecuas da água,

Gritava com puro pavor

Que o diabo estava no fundo da mina.

 

Com o realismo, que a toldada

Cabeça pelo tinto verde

Permitia, ti-ti-nha o os o-o-lhos ver-ver-me-lhos   

Dos seus den-den-tes es-co-corrri-rri-a san-san-gue.   

 

Assim se encerrava o Verão

Com um diabrete aboborado

Que o sol amadurecera

E mão  traquina  terminara.

  Zé Onofre

04
Nov21

Dia de hoje 12

Zé Onofre

                12

 

2021/11/03

 

Quando frequentei o quarto ano do liceu

O mesmo professor dava história e português.

Por que eu era Bom a história, coisa rara,

Tinha o mestre por mim certa consideração

E por isso a português o mínimo era o dez.

 

Confiado nesta linha de acontecimentos

E como a história era o meu encanto,

Estudava- a como quem vive uma aventura,

O português esperava preso a um canto.

Exceto o que neste tinha interesse a leitura.

 

Havia também a ferocíssima gramática,

Mas aqui o professor da quarta classe,

Que não era de levar as coisas com graças,

Se não cantava afinado o – a, ante, após até…

A “santa Luzia”, dos cinco olhos, fazia desgraças.

 

Na escrita, a coisa não era boa nem má,

Era uma jogar na lotaria uns dias não outros sim 

Fazia a redação com pouca, ou muita dificuldade,

Que admiração, era feita sem prazer algum.

O importante era que tivesse começo, meio e fim.

 

Tinha sempre a nota dez, pelo menos, garantida

Deixava estar como estava. Asneira grande seria

Se tentasse mudar o que bem estava e ter negativa.

Assim, do modo que a coisa bem seguia,

Tinha a passagem de fim de ano garantida.

 

Um dia aconteceu a desgraça quase total.

O Mestre com certeza acordou de juízo torto.

Tema – “Regresso a casa após longa ausência”.

Era tema para quem nunca fora além do Porto,

Que saíra num dia de manhã e voltara no outro?

 

Paciência estava no barco era para fazer.

Se a não fizesse nem a História garantia a nota dez.

Então para a viagem parecer longa e durar

Pus a máquina, suada, fumegante e ofegante

A parar não poucas vezes em cada rampa que fazia.

 

A viagem que nem o diabo faria tão acidentada,

Descabida, inverosímil inventada até à medula,

Demorou bem dez horas que não foram coisa breve.

O professor furioso  - então a máquina era uma mula?

Nesse dia a bendita nota dez resolveu fazer greve.

 

Alguns anos mais tarde, mas muito mais tarde,

Veio-me este acontecimento à memória.

Pendurado numa montra estava um quadro

Que pelo seu aspeto tinha cem anos de história.

Se, então, eu te conhecesse a nota dez estava na mão!

Zé Onofre

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