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Dia de Hoje

Dia de Hoje

27
Out21

Dia de hoje 11

Zé Onofre

                    11

2021/10/27

No ponto mais alto,

Do monte mais alto

Da freguesia

Uma torre acastelada

Que servia de vigia.

 

Essa torre

Que ficava no monte mais alto

Tornava ainda mais alto

O cume mais alto

Da freguesia.

 

Nessa torre,

Que ficava no cume mais alto

Do monte mais alto

Da freguesia,

Vivia em solidão,

Noite e dia,

O Sentinela.

 

Numa noite de luar

Cansado da solidão

Desceu o moço sentinela

A semelhança de escadaria

Que do alto da torre vigiava o longe

Noite e dia.

 

Olhava as estrelas

Acompanhando com o alaúde

As suas canções de amigo

A que apenas o luar e solidão

Prestavam atenção.

 

Embalado na sua canção

Avança distraído.

Nem com o luar no seu esplendor,

Atentou num tronco caído

Que lhe passou uma rasteira

Que o deixou no chão sem sentidos,

Sem dar um suspiro de dor.

 

Apenas acorda com a aurora orvalhada.

Descobre a seu lado

Uma jovem ao sono abandonada,

Sob um manto de arbustos floridos

Sem dúvida feito à sua medida.

 

Agora,

No cimo da torre

Que fazia mais alto

O cume mais alto

Do monte mais alto

Da freguesia,

O jovem sentinela

E  jovem que encontrara,

Naquela solidão tão lá no alto

Sob o manto dos arbustos floridos,

Beijavam-se candidamente

  Zé Onofre

.

23
Out21

dia de hoje 10

Zé Onofre

                10

 

2021/10/22

 

Há um murmúrio de vento

Dentro de mim.

 

Há um murmúrio de vento

Correndo solto lá fora

Dentro de mim.

 

Há um murmúrio de vento

De folhas a dançar nas árvores lá fora

Dentro de mim.

 

Há um murmúrio de vento

De ramos a gemer lá fora

Dentro de mim.

 

Há um murmúrio de vento

De copas a conversar com copas lá fora

Dentro de mim.

 

Há um murmúrio de vento

Assobiando por entre troncos lá fora

Dentro de mim.

 

Há um murmúrio de vento

Cantando na floresta lá fora

Dentro de mim.

Este murmúrio de vento

Cantando na floresta lá fora

Assobiando por entre troncos lá fora

De copas a conversar com copas lá fora

De ramos a gemer lá fora

De folhas a dançar nas árvores lá fora

Correndo solto lá fora

Dentro de mim,

Virá de onde?

 

Penso, então, naquela árvore só

Perdida à beira do caminho,

Corroída pelos anos,

Tombada pelo vento,

Tostada pelo sol,

Coçada de cansaços

Que a ela se arrimaram.

 

Aquela árvore triste, só e perdida

Ali tão fora do seu lugar

Como foi ali parar?

Foi a floresta que o abandonou,

Ou foi trazida por algum gaio maluco,

Que sem razão alguma

Largou ali a semente de que nasceu.

 

Sinto que algo de comum nos une.

As suas folhas cantam ao vento,

Melodias tristes, doridas,

De uma alma perdida sem rumo.

Talvez saibamos que não pertencemos aqui

Que ambos sofremos de saudades

Da nossa floresta natal.

14
Out21

Dia de Hoje 9

Zé Onofre

9

2021/10/14

 

Era uma vez uma casa.

 

Era uma vez um quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez uma cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um jovem

Que dormia na cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um menino

Que dormia com o jovem

Que dormia na cama

Que dormia no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um jovem

Que contava historinhas

Ao menino que com ele dormia

Na cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um menino

Que dormia sonhando

Com as historinhas

Que o jovem irmão

Lhe contava na cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um menino

Que se levantava da cama

Que saía em sonhos

Pela janela

Daquele quarto

Que ficava na casa.

 

 

 

 

06
Out21

Dia de Hoje 8

Zé Onofre

                  8

 

2021/10/06

 

Há alguns anos

Sentava-me num banco

A falar com Pascoaes

De bronze.

 

Curioso perguntei,

Àquele bronze,

De olhar sempre posto

No pequeno horizonte que lhe deram,

Que via ele

Para além do casario.

 

Uma resposta

Caiu no meu pensamento.

Que não olhava o casario,

Apenas mirava no céu

As imagens sem fim

Que o vento desenhava

Com as nuvens

No infinito azul.

 

Deitei-me naquele banco,

Onde depois me deitei muitos outros dias.

Vi Veleiros,

Vi leões, hipopótamos, elefantes,

Continentes, ilhas, penínsulas, nações,

Deuses, anjos e demónios,

Rostos e máscaras.

Todas estas imagens

Pintadas do cinzento-escuro ao claro

Por um vento forte,

Ou por ligeira brisa.

 

Num dos anoiteceres,

De Domingo, após Domingo,

Vi,

Entre pequenos farrapos cinzentos,

Pétalas derramadas por planta incógnita,

Um corpo humano.

 

Não estava colorido

De branco e cinza

Como as outras imagens.

Era rosa-transparente

Colorido pelo sol-poente.

Tão translúcido,

Tão transparente,

Que se via,

Por entre a matéria do corpo,

O sofrimento imenso

De uma alma profunda.

  Zé Onofre

04
Out21

Dia de Hoje 7

Zé Onofre

                 7

 

2021/10/04

 

Uma resposta

A alguma gente

Que fazem a mesma pergunta.

Dou esta,

Porque por mais que o tente

Não consigo encontrar

Nenhuma outra.

 

Não,

Não sou escritor,ecrevinhador

Poeta muito menos.

Sou apenas

Um escrevinhador

A quem a doida,

Num desgraçado momento,

Convenceu

Mostrar a este mundo

O que escrevinha

Sobre

O que lhe vai

No fundo da alma

E que lhe passa

No pensamento.

  Zé Onofre

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