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Dia de Hoje

Dia de Hoje

14
Out21

Dia de Hoje 9

Zé Onofre

9

2021/10/14

 

Era uma vez uma casa.

 

Era uma vez um quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez uma cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um jovem

Que dormia na cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um menino

Que dormia com o jovem

Que dormia na cama

Que dormia no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um jovem

Que contava historinhas

Ao menino que com ele dormia

Na cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um menino

Que dormia sonhando

Com as historinhas

Que o jovem irmão

Lhe contava na cama

Que ficava no quarto

Que ficava na casa.

 

Era uma vez um menino

Que se levantava da cama

Que saía em sonhos

Pela janela

Daquele quarto

Que ficava na casa.

 

 

 

 

06
Out21

Dia de Hoje 8

Zé Onofre

                  8

 

2021/10/06

 

Há alguns anos

Sentava-me num banco

A falar com Pascoaes

De bronze.

 

Curioso perguntei,

Àquele bronze,

De olhar sempre posto

No pequeno horizonte que lhe deram,

Que via ele

Para além do casario.

 

Uma resposta

Caiu no meu pensamento.

Que não olhava o casario,

Apenas mirava no céu

As imagens sem fim

Que o vento desenhava

Com as nuvens

No infinito azul.

 

Deitei-me naquele banco,

Onde depois me deitei muitos outros dias.

Vi Veleiros,

Vi leões, hipopótamos, elefantes,

Continentes, ilhas, penínsulas, nações,

Deuses, anjos e demónios,

Rostos e máscaras.

Todas estas imagens

Pintadas do cinzento-escuro ao claro

Por um vento forte,

Ou por ligeira brisa.

 

Num dos anoiteceres,

De Domingo, após Domingo,

Vi,

Entre pequenos farrapos cinzentos,

Pétalas derramadas por planta incógnita,

Um corpo humano.

 

Não estava colorido

De branco e cinza

Como as outras imagens.

Era rosa-transparente

Colorido pelo sol-poente.

Tão translúcido,

Tão transparente,

Que se via,

Por entre a matéria do corpo,

O sofrimento imenso

De uma alma profunda.

  Zé Onofre

04
Out21

Dia de Hoje 7

Zé Onofre

                 7

 

2021/10/04

 

Uma resposta

A alguma gente

Que fazem a mesma pergunta.

Dou esta,

Porque por mais que o tente

Não consigo encontrar

Nenhuma outra.

 

Não,

Não sou escritor,ecrevinhador

Poeta muito menos.

Sou apenas

Um escrevinhador

A quem a doida,

Num desgraçado momento,

Convenceu

Mostrar a este mundo

O que escrevinha

Sobre

O que lhe vai

No fundo da alma

E que lhe passa

No pensamento.

  Zé Onofre

30
Set21

Dia de hoje 6

Zé Onofre

                       6

 

2021/09/30

 

Era Verão.

A aragem do regato

Amainara o calor do dia.

Já se podia jogar

No largo do cruzeiro.

 

No meio

Da brincadeira dos grandes

Um miúdo corria.

Embora a idade fosse pouca

Para o jogo dos maiores

Divertia-se.  

 

O lusco-fusco

Chegava.

Com ele uma sombra,

Vinda não se sabia de onde

Desapareceu com o pequenito

Estrada acima.

 

A rapaziada mais velha

Somente se apercebeu

Que algo de errado acontecera

Quando viram o pequeno

A descer a estrada

Tremendo como varas verdes.

 

Vinha de cabelo no ar,

Os olhos grandes como bugalhos,

A boca aberta

De lábios paralisados.

 

Parecia pedir socorro,

Mas qualquer som saía da boca horrorizada.

Naquela boca

Tudo paralisara

As cordas vocais,

A língua.

Daqueles lábios

Nada saía

Sequer um grito.

        Zé Onofre

22
Set21

Dia de hoje 4

Zé Onofre

                 4

 

2021/09/22

 

Num tempo,

Que tinha todo o tempo

Que o tempo tinha,

Saltava

De Terra em Terra,

De polegar espetado ao vento,

À espera que um quatro rodas

Me levasse.

 

Nesse tempo,

Em que tinha

Todo o tempo

Que o tempo tinha,

Fui parar à praia de Matosinhos,

Onde esperava abrigo

Que não encontrei.

 

Como tinha

Todo o tempo

Que o tempo tem

Recomecei a viagem,

Dedo polegar

Espetado ao vento,

Para a casa paterna

Junto ao Monte de Stª Cruz,

Junto ao Tâmega.

 

Como tinha

Todo o tempo

Que o tempo tem,

E os quatro rodas

Não viam,

Ou desviavam os olhos,

Do polegar

Espetado ao vento,

Continuei noite dentro.

 

Passo atrás de passo,

Pé à frente,

Pé atrás

Ia.

 

O sol

No seu vagar de Verão

Não se pôs,

Foi-se pondo

Tinha, como eu,

Todo o tempo

Que o tempo tem.

 

A subir a serra de Valongo,

As estrelas,

Uma depois da outra,

Acendiam-se,

Fazendo ressaltar

O azul-escuro do céu

De horizonte a horizonte.

Como Todos

Tínhamos todo o tempo

Que o tempo tinha

Eu,

Sol,

Estrelas

Até a lua  

Numa marcha

Lenta e leitosa

Apareceu

Para iluminar

Os meus passos

Serra acima,

Serra abaixo

Até onde as pernas cansadas

Encontraram descanso

Num tronco do caminho.

 

Os olhos, esses,

Continuaram

A seguir o caminhar da lua,

Gozando

Todo o tempo

Que o tempo tem,

Até ao alvorecer.

   Zé Onofre

21
Set21

Dia de Hoje 3

Zé Onofre

                      3

 

2021/09/21

 

A escuridão

Acontece-me

Sem mais, nem menos,

Sem aviso prévio.

 

Toma conta

De todos os interstícios

Desta minha

Cabeça desnorteada.

 

Cortina preta

Fecha as janelas da sala

Para que veja bem

O filme em que me meti.

 

Há um tipo

Aos tropeções

Em certezas

Incertas.

 

Há um tipo

Que cai de nariz

Onde

Não é claramente chamado.

 

Há um intruso

Que entra em vidas alheias

Que acena

Uma outra palavra

Para dar um certo ar

De boa educação.

 

Esta escuridão

Que me acontece

Sem mais, nem menos,

Sem aviso prévio,

Vem

Para me arrastar pelo chão,

Ou vem

Para desnudar o que sou?

  Zé Onofre

19
Set21

Dia de Hoje 2

Zé Onofre

             deonde  2

 

2021/09/19

 

Havia.

Lá na minha aldeia,

Perdida entre montes,

Havia

Uma corrente de água.

 

Havia.

Lá, do outro lado da estrada,

Onde ficava a minha casa,

Havia

Uma corrente de água.

 

Havia.

Lá, entre dois campos verdes,

Em frente à minha janela

Havia

Uma corrente de água.

 

A corrente de água

Que havia

No meio dos campos verdes

Em frente da minha janela,

Do outro lado da estrada,

Onde ficava a minha casa,

Na minha aldeia,

Não sabia de onde vinha.

 

A corrente de água

Que havia

No meio dos campos verdes

Em frente da minha janela,

Do outro lado da estrada,

Onde ficava a minha casa,

Na minha aldeia,

Não sabia para onde corria.

 

Apenas sabia

Que naquela corrente de água

Que havia

No meio dos campos verdes

Em frente da minha janela,

Do outro lado da estrada,

Onde ficava a minha casa,

Na minha aldeia,

Que vinha não sei de onde,

Que ia não sei para onde,

Vivia as minhas aventuras marinheiras.

 

Hoje

Penso que sei

Que aquela corrente de água

Que havia,

No meio dos campos verdes,

Em frente da minha janela,

Do outro lado da estrada,

Onde ficava a minha casa,

Na minha aldeia,

Que vinha não sei de onde,

Que ia não sei para onde,

Levava-me sem saber

Para além do mar.

Zé Onofre

16
Set21

Dia de Hoje 1

Zé Onofre

                     1

 

2021/09/15

 

Hoje

Dei por mim

 Parado a olhar um quadro

Que há anos

Pendurei na parede.

É um quadro

Desenhado pelo meu filho.

Um cavalo

A começar uma galopada.

Passaram-se dias,

Meses,

Anos.

Lá está o cavalo

Na mesma posição

Ameaçadora

De se abalar.

Desde sempre  

Ameaça

Deixar branco o papel,

Saltar

O caixilho que o cerca.

Já não acredito

Na sua promessa de partir.

Ficará

Eternamente naquela posição

Agarrem-me

Se não fujo.

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